Ayvu Rapyta - Palavra Habitada
Somos um grupo de contadores de histórias
que tem como fio condutor as narrativas contadas e costuradas na roca do tempo das culturas.
Buscamos no prazer das leituras, habitar com sonho e magia no coração das pessoas.
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sábado, 19 de julho de 2008

Max Martins


... E veio o Amor, este Amazonas
fibras febres
e mênstruo verde
este rio enorme, Paul de cobras
onde afinal boiei e enverdeci
amei e apodreci.

Os versos fortes do poema Travessia I, de 1966, revelam a intimidade do poeta Max Martins com o jogo de palavras e imagens, matéria prima da poesia.Disciplinado, Max é autodidata. Concluiu somente o curso primário, mas aprofundou-se no estudo da palavra através da leitura de ensaios, romances e poemas. Fez parte de uma geração de intelectuais que freqüentavam as reuniões do Central Café, em Belém, lideradas pelo professor Francisco Paulo do Nascimento Mendes, o Chico Mendes.Ao longo da vida, publicou onze livros que estão reunidos na Poesia Completa "Não Para Consolar", de 1992, Edições Cejup.Hoje, Max Martins é o maior poeta paraense em atividade. Em entrevista ao jornalista Tito Barata, fala de vida, poesia e lembranças. Vejamos algumas partes:

Afinal, o que é a poesia?

Max - Eu não sei, busco saber o que seja. Pergunto para ela... A poesia é sempre uma dúvida. Começa que a palavra que a gente tem a ilusão... Mente a si mesmo de que a palavra é a coisa, mas nunca é a coisa. É como diz o mestre zen budista: Não confunda a lua com o dedo apontando para a lua.

Como você inicia na poesia?

Max - Eu começo na poesia entre os 14 e 15 anos. Uma poesia nos moldes de então: parnasiana, bem feita, de acordo com o figurino acadêmico e tradicional. Depois eu descobri o Modernismo. Eu devo ao [Francisco] Chico [Paulo do Nascimento] Mendes a descoberta do Modernismo. Um moleque lá da rua onde eu morava me disse: Eu tenho um professor [Chico Mendes] no Colégio Nazaré que nos ensina que a poesia não é obrigada a ter metrificação, rima e versos que fecham com o poema. Eu refleti e então me danei a fazer poemas modernistas, que, mais tarde, deságuam no meu primeiro livro "O Estranho", de 1952, na mesma coleção de "A Linha Imaginária" de Ruy Barata.

O que te levou a escrever poesia?

Max - Eu acho que sempre, em criança, eu quis me exibir. Eu tinha inveja dos garotos reunidos na porta da minha casa, na adolescência, que improvisavam peças de teatro na rua. E esses garotos se entrosavam bem com as garotas das redondezas. Eu ficava com inveja, me achando incompetente para representar. Então eu descobri um poema, dentre os recortes da minha mãe, de um poeta paraense [Rocha Júnior], meu tio, irmão dela, que era dedicado à mãe dele. Logo também fiz um, dedicado à minha mãe, sem metrificação, nem nada. E por aí fui... Eu ganhei os anos, fiz poemas de acordo com o tratado de versificação do Olavo Bilac e Guimarães Passos, até descobrir o Chico Mendes que me apresenta ao Modernismo.

Como você escreve? Você guarda os seus fragmentos?

Max - Sim. Eu guardo. Eu escrevo com caneta. Uso cadernos, mas atualmente pego qualquer papel, o que estiver mais à mão. Eu durmo muito tarde, ou melhor, eu acordo muito cedo, três da manhã. E não durmo mais porque também é sinal da velhice, fico sem sono. Mas não me angustio por causa disso. Angustio-me ao fazer o poema, me angustio até fisicamente, fico cansado. Eu guardo nos cadernos aquilo que eu chamei de Palavras a esmo. Eu quero que essas palavras não sejam minhas.Um dia, do meu diário que tem muitas palavras a esmo, imagens a esmo, que eu não quero minhas, vou retocar, ao acaso, essas palavras. Então esse meu trabalho de retocar, de reescrever, eu quero que sejam minhas, que sejam a minha vida. E aí o poema passa a ser biográfico, mas não biográfico imediatista das minhas dores de cotovelo ou qualquer coisa.

Por que você nunca quis ser membro da Academia Paraense de Letras? Você já recebeu convite?

Max - Nunca fui tentado a entrar, embora tenha recebido convite de alguns acadêmicos. Nunca tive o entusiasmo dos que queriam me botar lá. A Academia é presa à tradição e eu sou modernista do princípio ao fim. Não gostos dos princípios da formação das academias, embora tenham muitos bons representantes. Essa formação está se modificando, mas não me interessa.Você trabalha na construção dos poemas constantemente.

Se amanhã uma editora quisesse editar um livro teu, você teria o material pronto?

Max - O material será uma reedição ampliada do "Não para consolar" com poemas inéditos. Estou preparando para lançar.

Estaria pronto um livro inédito para amanhã?

Max - Eu nunca me apresso, nunca tenho urgência, porque eu sei para onde eu vou.

Para onde?

Max - Para o mistério da poesia.

domingo, 13 de julho de 2008

A escrita é dom, arma e vitória

“Sou mulher e escrevo. Sou plebéia e sei ler. Nasci serva e sou livre. Vi coisas maravilhosas em minha vida. Fiz coisas maravilhosas em minha vida. Durante algum tempo, o mundo foi um milagre. Depois a escuridão voltou. A pena treme entre meus dedos a cada vez que o aríete investe contra a porta. Um sólido portão de metal e madeira que não tardará a despedaçar-se. Pesados e suados homens de ferro se amontoam na entrada. Vêm a nossa procura. As Boas Mulheres rezam. Eu escrevo. É minha maior vitória, minha conquista, o dom do qual me sinto mais orgulhosa; e as palavras, embora estejam sendo devoradas pelo grande silêncio, hoje constituem a minha única arma. A tinta estremece no tinteiro com os golpes, também ela assustada. Sua superfície se eriça como a de um pequeno lago tenebroso. Mas depois se aquieta estranhamente. Levanto a cabeça, esperando uma invasão que não chega. O aríete parou.”
São as primeiras linhas do romance História do Rei Transparente, de Rosa Montero (Ediouro, 2006). A narrativa conta a história da camponesa Liola, dos 15 aos 40 anos, no século XII, vivendo as transformações desse período histórico na Europa. É mais uma narrativa de ambientação na Idade Média e de exposição de idéias e acontecimentos que transformaram a sociedade. Ao se vestir como homem e viver das batalhas e dos feitos de cavalaria, ela é uma espécie de “donzela guerreira”, motivo recorrente da literatura ao longo do tempo. A diferença está em que a arma mais poderosa com que pode lutar é aquela que preserva sua história de erros e acertos: a escrita. A palavra que, segundo o escrivão Morbidus, tem ainda condições de criar: “Quando escrevo alguma coisa, torno-a real”, diz ele. Este romance é, simultaneamente, a história fictícia de Liola, a retomada na ficção da história medieval, a história do Rei Transparente (narrativa metafórica e maldita que acompanha todo o romance) e a história da escrita do livro.
Rosa Montero já havia demonstrado a crença na escrita e a paixão de ler em A louca da casa (Ediouro, 2004), autobiografia literária de grande beleza e verdade. Ao enredar neste novo livro os vários níveis e espécies de histórias, demonstra o quanto a escrita tem o poder de aglutinar, ampliar, discutir, registrar, sugerir, evocar, transpor, encantar, e muitos verbos mais. A rude camponesa aprendeu a ler com a amiga Nyneve, a quem se atribui na narrativa a condição de “bruxa do conhecimento”: alguém capaz de encontrar soluções e saídas, além de dotada de perspicácia e capacidade de utilização de informações e espírito conectado com informações atualizadas. Isso lhe permite análises em profundidade, previsão de acontecimentos futuros, consciência do presente, capacidade de articulação de idéias.
Com ela, Liola ensaia as primeiras palavras escritas, que lhe abrem, sempre que um livro está a sua disposição, as portas para a informação e para o conhecimento de novos e mais amplos horizontes culturais. E lhe permite, ao cabo, escrever o romance, que lemos com avidez.
No fragmento citado acima é possível perceber como o medo e a solidão encontram forças e companhia na medida em que as palavras são inscritas e preservadas. Ao mesmo tempo, elas oferecem resistência e encorajamento. Numa simbiose com o espaço e os acontecimentos, o tinteiro move-se e treme seguindo o rito do aríete. Quando o texto e a pena suspendem sua atividade, o aríete pára. A palavra-arma fez recuar o instrumento da guerra, que forçava as portas do palácio e a liberdade de seus habitantes.
Em A louca da casa, Rosa Montero afirmava: “A palavra é que nos faz humanos”. Fiel a essa crença, ela define sua prática de escrita: “Eu coloquei e continuo colocando palavras no nada”. Consciência perfeita do fazer literário, do uso da condição humana da palavra: o nada aparece metamorfoseado em romance, em resposta, em interação com outros humanos, capazes, também eles, de outras e significativas palavras.
A passagem do estado de plebéia e serva para as maravilhas vivenciadas e vistas não se distancia da competência da escrita. As palavras se gravam do mesmo modo que as preces: ambas são armas, ambas vencem o silêncio e a debilidade.
Toda vez que me encontro com um texto com essa qualidade, me assaltam as imagens de seres distanciados da força da palavra, que a renegam, que a consideram dispensável e cerceadora. Penso nos analfabetos, nas crianças iletradas, nos jovens monossilábicos, nos adultos sem direito sequer à voz. Sem armas para deter a destruidora ação dos aríetes sociais e ideológicos, os que não aprenderam a ver a palavra como identidade humana estão muito mais sujeitos à invasão e à derrota.
Será que a sociedade brasileira se dá conta da destruição de qualquer futuro mais humano quando menospreza as questões da educação? Quando sobrepõe as armas da nãomeimportismo aos baixos índices de leitura compreensiva no Brasil? Os professores percebem quanto sua ação pedagógica pouco eficaz diminui as chances de defesa de seus alunos na guerra do dia-a-dia? Os alunos têm consciência de quanto perdem do presente e do porvir quando atribuem à educação o mesmo valor que a um game envelhecido e já vencido?
Bem poderiam eles dizer, como a personagem de Rosa Montero, a escrita “é minha maior vitória, minha conquista, o dom do qual me sinto mais orgulhosa...”. Bem poderiam...

Marta Morais da Costa [18/03/2007]
(Texto enviado por Delani Alves)

A menina e o pássaro encantado

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um pássaro diferente de todos os demais: Era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da gaiola estiver aberta, vão embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades...
Suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava.
Certa vez, voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão.
"- Menina, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco de encanto que eu vi, como presente para você...".
E assim ele começava a cantar as canções e as estórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como fogo, penacho dourado na cabeça.
"... Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes. E de novo começavam as estórias.
A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre.
Mas chegava sempre uma hora de tristeza.
"- Tenho que ir", ele dizia.
"- Por favor não vá, fico tão triste, terei saudades e vou chorar....".
"- Eu também terei saudades", dizia o pássaro. "-- Eu também vou chorar. Mas eu vou lhe contar um segredo: As plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios... E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera da volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudades. Eu deixarei de ser um pássaro encantado e você deixará de me amar.
Assim ele partiu. A menina sozinha, chorava de tristeza à noite. Imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa destas noites que ela teve uma idéia malvada.
"- Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá; será meu para sempre. Nunca mais terei saudades, e ficarei feliz".
Com estes pensamentos comprou uma linda gaiola, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Finalmente ele chegou, maravilhoso, com suas novas cores, com estórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu.
Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz. Foi acordar de madrugada, com um gemido triste do pássaro.
"- Ah! Menina... Que é que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias...".
Sem a saudade, o amor irá embora...
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas isto não aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ia ficando diferente. Caíram suas plumas, os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio; deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava pensando naquilo que havia feito ao seu amigo... Até que não mais agüentou.
Abriu a porta da gaiola.
"- Pode ir, pássaro, volte quando quiser...".
"- Obrigado, menina. É, eu tenho que partir. É preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro da gente. Sempre que você ficar com saudades, eu ficarei mais bonito.
Sempre que eu ficar com saudades, você ficará mais bonita. E você se enfeitará para me esperar...
E partiu. Voou que voou para lugares distantes. A menina contava os dias, e cada dia que passava a saudade crescia.
"- Que bom, pensava ela, meu pássaro está ficando encantado de novo...". E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos; e penteava seus cabelos, colocava flores nos vasos...
"- Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje...
Sem que ela percebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado como o pássaro. Porque em algum lugar ele deveria estar voando. De algum lugar ele haveria de voltar.
AH! Mundo maravilhoso que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama... E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento.
- Quem sabe ele voltará amanhã....
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
Rubens Alves

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Catavento


Era uma vez um catavento que toda manhã ficava na janela esperando o ventinho lhe visitar. Às vezes seu amigo demorava e o catavento ficava parado sem ter com quem brincar.
A brincadeira que ele mais gostava era catar vento, por isso quando ventinho chegava era aquela alegria, o catavento começava a girar, a girar, que nem dava para saber qual era a sua cor.
Ventinho dava muitas voltas ao redor de seu amigo só para vê-lo girando, quando podia trazia consigo outros amigos, como a folhinha da goiabeira, ou então, o sabiá e a borboleta amarela que moravam lá pertinho e aproveitavam a carona de ventinho e vinham juntarem-se a brincadeira.
O sabiá chegava bem perto do catavento e dizia:
-Caaata vento, cata, catavento para mim!
E de outro lado a folhinha da goiabeira que queria ficar bailando antes de repousar no chão também repetia:
-Caaata vento, cata, catavento para mim!
Cada vez que o catavento ouvia seus amigos, catava mais e mais vento.
E a brincadeira acontecia até D. Ventania chamar se u filho ventinho.
O catavento se despedia de seus amigos e esperava amanhecer mais um dia, para então brincarem de catar vento na janela.

Será que eu conto,
Será que eu invento,
Esta é a história
Do catavento!!

Para Sofia que esperava na janela o catavento colorido catar ventos bem cedinho.
“Caaatavento, cata, cata vento pra Sofia...”
Andréa Cozzi

Sonhos e bibliotecas - Edmir Perroti

Nos anos 30 do último século, um grupo de intelectuais, liderado por Mário de Andrade, sonhou um projeto cultural de envergadura para a cidade de São Paulo: a criação de bibliotecas públicas, abertas à população em geral, em vários pontos da cidade. A iniciativa foi – e, poderá continuar sendo, se retomada em termos contemporâneos – contribuição fundamental à luta contra o analfabetismo e o iletrismo que, lastimavelmente, marcam ainda hoje nossa cena educacional e cultural. Reconhecendo a importância de formar leitores, ou seja, o papel educativo, cultural e socializador das bibliotecas, o grupo, além das dirigidas para adultos, idealizou também a criação de uma rede voltada especificamente para crianças e jovens, das quais a Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato, criada em 1935, foi a primeira. Tal movimento desembocou na criação da maior e mais complexa rede de bibliotecas públicas do País, cujo apogeu durou desses anos iniciais até os 60, quando a massificação começa a se impor como padrão dominante das políticas públicas de educação e cultura no País. A partir dos anos 70 esse formidável patrimônio cultural perde o rumo e até hoje, infelizmente, não conseguiu se refazer nem sequer compreender o que lhe aconteceu e está acontecendo. Quem, por exemplo, freqüentou a Biblioteca Monteiro Lobato em seu período áureo, encontrou ali um ambiente estimulante e vivo, onde era possível estar em contato com acervos diversificados e atualizados de periódicos e livros, alguns, inclusive, em línguas estrangeiras. Além de importante centro irradiador, a biblioteca “dos modernistas” era local de intensa produção e intercâmbio simbólicos, de interações de importância essencial à inscrição dos seus freqüentadores nas tramas da criação cultural. Na Monteiro Lobato, além das atividades fundamentais de leitura, da Hora do Conto, havia oficinas permanentes de criação literária, de artes plásticas, de confecção de jornais; havia, também, cotidianamente, encenações teatrais, debates, palestras, encontros com autores e muitas coisas mais. O jornal A Voz da Infância fez história, na biblioteca. Muitas cabeças boas, que produziram e até hoje produzem informação e cultura no País, publicaram seus primeiros escritos ali. Da mesma forma, criações teatrais do Teatro da Biblioteca Monteiro Lobato (Timol) emocionaram e fizeram pensar milhares de crianças. Um ator e diretor hoje conhecido de todos, Marcos Caruso, não só se formou nesse grupo, como, depois de adulto, dirigiu-o por bastante tempo. Contemporânea da primeira biblioteca infantil criada em Paris, em 1925, a Biblioteca Monteiro Lobato era motivo de orgulho especial para aqueles que tinham oportunidade de freqüentá-la. Suas realizações, suas dinâmicas, aliadas à imponência do novo prédio que até hoje resiste, implantado nos anos 50 no Centro de São Paulo, apontavam não só para a memória cultural da produção infanto-juvenil, mas para o presente e o futuro. A Monteiro Lobato alimentava esperanças. A partir dela, podíamos vislumbrar cidadãos capazes de tomar os destinos do País nas mãos.Apropriação ou expropriaçãoExemplo como esse nos permite chamar a atenção para a diferença existente entre um mero depósito de livros e um ambiente efetivo de conhecimento e cultura. Aqueles que tiveram a oportunidade de freqüentar a Lobato sabem que existem diferenças fundamentais entre políticas públicas de democratização e políticas de massificação cultural, entre práticas de apropriação e práticas de expropriação simbólica, vigentes entre nós desde a colonização. As primeiras acolhem, abraçam, abrem espaço, incentivam as trocas, o livre-intercâmbio de idéias; as segundas banem, afugentam, excluem. Para superar condições de mero entreposto e tornar-se espaço de cultura vivo, dinâmico, atrativo, a biblioteca não pode simplesmente existir, entregando ao acaso sua dinamização. É preciso atuar, agir, criar metodologias e estratégias compatíveis com projetos históricos empenhados em reverter o quadro de exclusão que sempre marcou a vida nacional; é preciso combinar opções de políticas públicas inclusivas com práticas culturais da mesma natureza, criando-se uma dinâmica entre macro e micro ações visando à participação e inclusão de todos nos processos de conhecimento e cultura.Ao mesmo tempo que uma biblioteca contemporânea deve ser aberta a novos leitores (e também aos não leitores), é indispensável concebê-la, também, como plataforma de lançamento, ponto de acesso dos diferentes públicos a circuitos culturais amplos e diversificados. As bibliotecas devem ser como as estações, ou seja, pontos de chegada e de partida em direção aos demais dispositivos culturais da cidade, do País, do mundo. Em suma, trata-se de inserir os sujeitos não apenas na biblioteca, mas nas ricas e intrincadas tramas simbólicas de nosso tempo. A qualidade e o compromisso público dos que nela trabalham também são elementos centrais nas políticas de apropriação cultural. Sem compreensão do papel fundamental que exercem, sem formação de base e continuada, compatível com tal compreensão, sem interesse efetivo pelos bens simbólicos, dificilmente esses profissionais serão percebidos ou se perceberão como protagonistas culturais. Não há, pois, como deixar de considerar a qualidade essencial dos mediadores. Em última análise, é no “aqui e agora” do concreto que os atos culturais ganham sentido. Mediadores desmotivados, despreparados, desinteressados, alheios às questões culturais gerais, bem como às dinâmicas singulares de seu universo imediato, não estão em condições de atender às exigências feitas por projetos destinados a reverter os caminhos excludentes da cultura no País. Elo com a comunidadeO compromisso com uma biblioteca ativa, inventiva e participativa implica também criação de vínculos fortes com o meio em que ela se encontra. Nesse sentido, torna-se necessário não só levar a biblioteca à comunidade, mas também trazer essa e sua memória, suas histórias, suas realizações significativas para dentro da biblioteca. Uma instituição distante não cria elos fortes e duradouros com seu público.É preciso transitar pela cultura local, da mesma forma que pela universal. É preciso buscar e coletar a memória da comunidade, registrá-la, dar-lhe forma e sentido, recriá-la, disponibilizá-la sob diferentes formas, como exposições, boletins, livros e álbuns fotográficos, tal como faz a Estação Memória, projeto criado por nós, na USP, e implantado na Biblioteca Infanto-Juvenil Álvaro Guerra, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. A atenção voltada à cultura local é contraponto necessário aos processos de globalização, num movimento dinâmico e essencial de interpenetração entre o próximo e o distante, o aqui e o lá, o “nosso” e o “do outro”. A biblioteca contemporânea não pode aceitar o papel de entreposto de signos que as políticas e práticas de expropriação cultural sempre adotaram e continuam adotando. Deve, antes, estar antenada com as exigências de seu tempo e momento, tal como preconizou, em sua época, o grupo de intelectuais ligado a Mário de Andrade. Assim consideradas, as bibliotecas herdadas dos “modernistas” poderão ser redimensionadas, desempenhando novamente o papel cultural essencial do passado. Não serão, em tais condições, dispositivos restritos a pequenos grupos, pertencentes em geral às elites econômicas ou intelectuais. Serão, como em várias partes do mundo e ao alcance de todos, recursos essenciais de participação na cultura. Nossos modernistas, com certeza, estarão felizes se tivermos a capacidade de reativar sonhos de inteligência e beleza na vida do País.
Edmir Perroti é professor da Escola de Comunicação e Artes da USP.
FONTE: Revista Carta na Escola - 09/06/2008

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Nascem flores com o tempo

Sentir, eu sei, tem seu preço
dores, prazeres, amores
nunca erram meu endereço
a vida me quer sentindo
à flor da pele desde o começo
sentir, eu sentirei até o fim
nascem flores com o tempo
flores no vaso é com vocês
eu vou regar um jardim.

Ricardo Corona
(poeta curitibano)

domingo, 15 de junho de 2008

Compartilhamento...

Caros companheiros da aventura de viver e formar leitores,

Gostaria de compartilhar fragmentos de um texto de Guiomar de Grammont,que me comove.Lembrando que comover é nos tirar do lugar,nos tirar de onde estamos,que ele possa acompanhá-los,inspirá-los e fortalecê-los nos momentos de dúvida e "sozinhez".Tenham um ótimo dia,um grande abraço solidário e quixotesco,Delani.
"A pensar a fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem.
A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Dom Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado,de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram,meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tornou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-lo com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas pra que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens?Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. (...)
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida. Ler pode tornar o homem perigosamente humano."
Lani Alves(in memórian)

A Bolsa Amarela - O 1º livro a gente nunca esquece!


"Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades." Assim começa o primeiro livro que levei emprestado da biblioteca da escola na 3ª série! A frase inicial fez com que Raquel e eu continuássemos juntas até hoje, ambas buscavam este lugar secreto de guardar vontades... Lembro o quanto o episódio do galo chamado Terrível pôs-me a pensar, na verdade não parava um minuto de pensar que haviam costurado o pensamento dele com linha bem forte pra que achasse que só podia ser galo de briga, e nem imaginam o que aconteceu com ele... (desculpem não dá para contar a história, o nº de caracteres não suporta, a danada mania de contador de histórias, falar e falar, então vocês terão que ler) Pois bem,pra todo mundo, todo mundo mesmo, leio este livro, ele representa muitas coisas para mim, especialmente autonomia, como já citei, foi meu primeiro empréstimo, levei para casa e depois de sete dias estava lá para buscar outros, tinha até carteira da biblioteca com foto 3x4.
Chegou o dia de conhecer a “mãe" da bolsa amarela, Lygia Bojunga veio a Belém para uma conversa literária no IAP, descobri que muitos na platéia tinham histórias com este livro, no final pedi pra que ela dedicasse o meu exemplar a Sofia, já falei a ela que esta é a herança que deixarei, uma bolsa toda amarela!
Andréa Cozzi

A serpente e o vagalume - Quem lembra dessa história?

Conta a lenda que uma vez uma serpente começou a perseguir um vagalume, que fugia rápido com medo da feroz predadora; a serpente nem pensava em desistir. Fugiu um dia e ela não desistia, dois dias e nada... No terceiro dia, já sem forças o vagalume parou e disse à cobra:Posso lhe fazer três perguntas? Não costumo abrir esse precedente para ninguém, mas já que vou te devorar mesmo, pode perguntar...
Pertenço à sua cadeia alimentar ? Não.
Eu te fiz algum mal?Não.
Então, por que você quer acabar comigo? Porque não suporto ver você brilhar...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Blá, blá, blá, blá...


Este grupo de contadores de história do bosque, cada figuraças, parece um imenso livro aberto, daqueles cheios de coletâneas de todos os gêneros, eis alguns deles:
Tem o meu menino inteligente, carinhoso e muito educado, este de quem falo, me fala macio e finge que entende o que nem escutou ,fica sempre ao meu lado, tem também o gênio da lâmpada, porém, com certeza não me concederá os três desejos, outro sim, se eu deixar, roubará minha alma, assim como rouba minha recates ao me abraçarE a madrinha, tem cara de tudo menos de fadinha, seu sorriso é um grande enigma, tem também a mãe de todos, que doçura, tem a que se sente, a voz empossada, é uma realeza só, e a psiu com seu jeito zen nos encanta, tem a menina ,que é só sorriso e como brilha o seu sorriso , tem a que inventa ,enlaça, traça e abraça , tem de tudo neste grupo tem a que chora por tudo e como é linda quando chora. Bem ainda tem muitos outros mas fica pra próxima tá? Deu vontade de nos conhecer? Venham, tem lugar pra todos, aguardamos vocês, não percam sábado dia 21/06/08, Bosque Rodrigues Alves entrada pela Perebebuí ,bla bla bla, bla bla bla bla.
Rosilda Costa