Ayvu Rapyta - Palavra Habitada
Somos um grupo de contadores de histórias
que tem como fio condutor as narrativas contadas e costuradas na roca do tempo das culturas.
Buscamos no prazer das leituras, habitar com sonho e magia no coração das pessoas.
www.ayvurapyta@gmail.com e também no facebook

domingo, 28 de setembro de 2008

Procura-se histórias

Este foi o título de um e-mail, dentre tantos que recebi de Delani Alves. Em 2001 conheci num site de literatura infanto-juvenil a Lani, uma contadora de histórias de Curitiba. Seu grupo é coordenado pela prof.ª Marta Morais. Um grupo experiente, que muito ajudou o Tuerarup na escolha de repertorio, performance, etc.
Lani e nós passamos a viver uma linda história virtual de amor e amizade, trocavamos mensagens todos os domingos, daí sentimos a necessidade de cartas e telefonemas, as cartas se estenderam aos meninos e meninas do grupo, imagine a alegria da molecada, ao receber das mãos do carteiro as cartas da Iara-lani (assim a chamavamos), e eles respondiam a altura.
Nossa Iara-lani se tornou mais um membro do tuerarup, ganhou das crianças até um orokó (um tipo de cocar que usamos no momento da contação), para mim em especial ela era mais presente que pessoas com as quais convivia diariamente, apesar de nunca termos nos visto pessoalmente, esteve presente em muitos momentos felizes e tristes de minha vida, o nascimento de minha bonequinha, o inicio e o fim do Tuerarup, e agora no retorno do grupo de contadores, só que com adultos, professores da semec, um desafio que abracei com o mesmo desginio ancestral que tinha com o tuerarup. Lani viria para o I encontro de contadores de historias que estamos idealizando em Belém. Finalmente depois de 07 anos iriamos nos encontrar, quando recebi a mensagem da professora Marta Morais que minha querida amiga havia falecido aos 41 anos, repentinamente de infecção genaralizada, na mensagem a prof.ª Marta diz que ela se foi no momento mais feliz de sua vida pessoal e profissional, seu primeiro netinho havia nascido, e o grupo de contadores estava a todo vapor. A sensação que fica é a de tristeza e frustração, por tão pouco não pude abraçar minha amiga, ela sempre expressava o desejo de banhar-se num igarapé amazonico, o desejo era legitimo já que era uma Iara. Agora ela esta livre para banhar-se nestas águas. Serão dificieis os domingos sem sua presença, a dor é grande... Poucos conseguiram compreender nossa ligação tão intensa alinhavada pelas linhas da internet, lembro de uma frase de Picasso "Será possível expilcar o canto de um passarinho para alguém?"Amanhã Minha amada amiga faria aniversário, costumava enviar para Curitiba uma caixinha de presentes com mimos do Pará, ela adorava esta terra e o calor afetuoso das pessoas, fizemos muitos planos: tomar tacacá, ir ao Ver-o-peso, contarmos histórias juntas... Como ela mesma disse a mim uma vez "a trama que tece o tempo que nos cabe aqui na terra é de outra natureza. Compete a cada um de nós tornar significativo cada momento com sua carga de mistério, encanto, dor e alegria." Vivo a revisitar esta frase como a uma oração. Nesta noite, como vocês irão ler abaixo na mensagem enviada por Lani que compartilho com todos como um presente precioso, "não consigo dormir, tenho uma história atravessada entre minhas pálpebras", também precisava aquietar meu ser e aliviar a saudade contando esta história. As palavras que seguem são apenas parte de um acervo de mensagens dela que guardo para alimentar minha alma nesta jornada.
Andréa Cozzi.


Procura-se histórias

Extraordinariamente a casa está quieta e vazia. Preciso de uma porção diária de silêncio e solidão. Os últimos dias foram intensos como havia anunciado, Gregório, meu mestre, estava por aqui, sonhei tanto esta vinda, briguei, esperneei, discuti até o convencimento dos que pagam a conta. Fiz a mesa na conferência dele, grande parte do tempo, me desfazendo em lágrimas, trezentos pares de olhos a minha frente e eu chorando, sorte minha acreditar que posso, não desci aos infernos à toa, ganhei privilégios, a certa altura contemplei a platéia, muitos choravam comigo.
Gregório está velhinho e conta da sua avó índia caxinauá casada com descendente de holandeses, protestante, a avó quando grávida molhava a barriga com a água de uma bacia,quando o marido perguntou por que,ela lhe disse: "para que a criança nasça molhadinha, aberta para o outro, para o afeto, para o mundo. O nome já estava escolhido, Francisco, em homenagem ao de Assis, sobrenome Gregório, que agrega. Reparando nas casas comerciais do acre, ela percebeu que levavam o nome dos proprietários: armazém de José da silva; casa de carnes de Josué da silva; escritório de advocacia de Eduardo da silva, decidiu, o filho também seria da Silva, inaugurando um nome comunitário. Este Francisco casou com uma descendente de escravos, ligada ao candomblé, que quando engravidou tinha a certeza, fosse menino seria Francisco, ei-lo:Francisco Gregório da silva filho. A avó contava histórias aos netos e os ensinava, meninos e meninas a bordar, costurar, cantar, cozinhar. Bordavam toalhinhas coloridas, com as fases da lua.
No aniversário de 11 anos de uma das netas, convocou todos eles para que entregassem caixas com as toalhinhas para a menina, passado um tempo elas os chamou até a beira do rio, lá ela pediu a menina que jogasse no rio sua primeira toalhinha borrada e explicou:"as mulheres são mensalistas, limpam seu sangue todo mês, os homens não, estes têm que ser companheiros amorosos das mulheres, que são valentes, solidárias, fraternas, corajosas, ousadas, diabólicas e no auge da graça, despudoradas."
Certa vez, Eduardo Galeano pediu ao Gregório que o levasse ao Acre, anônimo ele recolhia histórias de mulheres, ouviu da avó um antigo mito caxinauá e inspirado nele escreveu a primeira história do livro “mulheres”, intitulada "o amor". A avó morreu aos 96 anos e deixou de herança ao Gregório uma trouxa, com muitos retalhos e sua caixinha de costura, ele desejava guardar isto, mas não escondido, começou a fazer pipas com os tecidos. Um dia alguém perguntou se ele não poderia expô-las em uma biblioteca, Gregório aceitou. Na exposição alguém o convidou para expor em um centro cultural, lá uns espanhóis o convidaram para levar as pipas para Barcelona, de lá para a Alemanha e depois para a França, uns italianos vendo as pipas disseram que aqueles padrões ficariam lindos em roupas, fizeram três coleções. Hoje 120 pipas percorrem a Europa, um outro tanto o Rio Grande do Sul. Gregório diz:"com uma trouxa, conheci o mundo. "No dia seguinte andávamos pelo bosque do papa com o Carlos Daitshman, estávamos de saída, quando encontramos o portão trancado, um ciclista passou e nos disse:"mais adiante tem uma passagem secreta". Rimos muito, a tal passagem era uma grade entortada, e aquele velhinho alto, atravessou a grade e cortamos caminho até o sorella, quando paramos de rir ele disse:"tem que deixar brecha para a possibilidade."
Há anos atrás reencontrei o Gregório no Rio, no paço imperial, onde trabalha, ele me contava de iniciativas maravilhosas para garantir o acesso a leitura, pessoas simples que abriram suas garagens e casas e as transformavam em bibliotecas para a sua comunidade, fiquei encantada e disse que por aqui não havia nada disto,sabia apenas da Elísia,que no alto boqueirão levava cestas de livros para a praça aos domingos,ele me garantiu que não,deveria haver, nós é que não sabíamos.Desde então tenho ficado de ouvidos e olhos abertos,buscando conhecer algo assim,nada.Voltamos a falar sobre isto agora,há muitas casa assim no Rio,cada vez mais,estão sendo chamadas de "casas do sossego", nomeadas por uma senhora que ele conheceu ao visitar Jacarepaguá, a dona havia recebido uma casinha de herança,como era sozinha, achou que não precisava de tanto,construiu duas peças nos fundos para viver e abriu a casa para os vizinhos,apenas livros e revistas em cestos,redes,tamboretes e um filtro com água. Gregório perguntou a uma senhora porquê estava ali,ela disse:"venho aqui pra ter sossego. "contei a ele da minha tristeza por viver na impermeável Curitiba "a única droga que vou admitir na minha vida", e ele me desafiou a descobrir lugares assim. Conto com vocês, por favor, perguntem aos amigos, aos inimigos, alguém há de conhecer um lugar como este. Aguardo, desculpem o tamanho do texto, precisava contar um pouco, parodiando Galeano:"não consigo dormir, tenho uma história atravessada entre minhas pálpebras. "verdade, fui levemente atropelada duas vezes entre ontem e hoje, dois estacionamentos diferentes, um mais patético que o outro. Ao se despedir, no aeroporto, ele me disse: "serenidade.” Anos atrás havia me dito: "firmeza.” Precisava compartilhar para voltar a dormir. Vou sonhar serenidade. bjos e ótima semana.

Delani Alves
31 de Julho de 2006

PS: Descobri esta semana que foi inaugurada em Araucária-PR, cidade em que Iara-lani trabalhou, a Escola Municipal Delani Aparecida Alves, uma das mais modernas instituições de ensino do Estado.Na homenagem dizia: "Delani Aparecida Alves foi homenageada pela Prefeitura de Araucária por toda a dedicação que teve com a educação dos alunos araucarienses. Ela nasceu em 29 de setembro de 1965 e faleceu em 17 de dezembro de 2007. Trabalhou na rede de educação do município desde 1992, como professora de Língua Inglesa. Delani amava os livros e acreditava na força de transformação que a arte literária poderia levar às pessoas, além disso, vivia intensamente cada história que contava."

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Ayvu Rapyta na Feira do Livro

Essa história de contador é mesmo contagiante. Primeiro dá um friozinho na barriga, a mão fica gelada e a cabeça parece flutuar, mas tem que ficar esperto, tem muita gente olhando e não pode ter vexame. É mais uma apresentação do grupo Ayvu Rapyta, são contadores levando muito mais que histórias. Levam alegria e encantamento onde quer estejam. Vocês já repararam como eles gostam de brincar, de rir?, e riem por qualquer coisa, é só festa quando estão por perto, mas conseguem ficar sérios e contar histórias com tudo o que elas têm direito: suspense, mistério, humor, tristeza, alegria... Estou gostando cada vez mais de fazer parte desse grupo. Posso dizer com tranqüilidade que o Ayvu Rapyta arrasou na XII Feira Pan-amazônica do Livro e quero dar parabéns a todos, pois sei o quanto cada um se dedicou para que o resultado fosse o melhor possível. Tenho certeza que conseguimos plantar uma semente de contador em vários dos nossos ouvintes, pude perceber nos olhinhos atentos e semblante feliz. Beijos!

Joana Martins

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Cenas e olhares da XII Feira Panamazônica do livro

A Feira Panamazônica chega a sua XII edição, este ano homenageando os 100 anos da imigração japonesa no Brasil, é só entrar na feira e perceber o olhar do oriente nos tisurus gigantes pousados nos móbiles, apenas para citar um, a arte de dobrar papeis, encantamento puro trazido com a cultura e a arte de um povo que aqui chegou para compor o mosaico cultural brasileiro.
Antônio Tavernard,o escritor homenageado foi poeta, contista, cronista e romancista,que faleceu muito jovem mas deixou a beleza da sua obra para ser contado e cantada.
Para nós do grupo Ayvu Rapyta, esta feira será memorável como o nosso batismo enquanto grupo, com direito a nome, figurino, repertório e ousadia.Foram dias de preparação, tínhamos que dividir o tempo das histórias entre uma aula e outra, quem é professor sabe do cotidiano referido!Portanto, temos um contentamento em dividir com vocês algumas cenas do cotidiano do grupo na Panamazônica, desejando que seja apenas a primeira de muitas do Ayvu rapyta.
"Pois esta é apenas uma das histórias que sabemos contar, e como sabemos."

Internet: uma via de mão-dupla

A internet é o instrumento de comunicação mais utilizado nos dias de hoje, onde o fluxo de informações, novidades e entretenimento estão ao nosso alcance com muita facilidade, pois com um simples “click” estamos conectados ao mundo.
É difícil enumerar quantos benefícios à internet nos trouxe. Foi um grande avanço para as telecomunicações, uma grande ferramenta para pesquisas, estudos científicos, organizacional (em vários aspectos) e até sentimental, diminuindo tempo e espaço. Com ela, tudo ficou muito mais rápido e prático e fez com que esse mundo dominado por técnicas, agilidade e competições se tornasse muito mais ativista e produtivo.
Porém, o uso sem maturidade e responsabilidade desse instrumento, fez com que ele se transformasse em uma via de mão-dupla; pois há um abuso da imagem, de informações sem bases sólidas e pessoas ocultas por vidas pseudo-verdadeiras, causando assim uma desordem social e comportamental.
Infelizmente, o ativismo de nossa sociedade tole coisas imprescindíveis para a vida humana, como o diálogo, a compreensão, amor, respeito, dignidade e honestidade, fazendo com que “esta terra sem lei”, a internet, tome proporções enormes que contribuem para a disseminação do mal e abre as portas da miséria humana e de todas suas carências sentimentais e psicológicas.
As maiorias das pessoas que a utilizam, sem maturidade, escondem suas verdadeiras personalidades e potencialidades negativas ou positivas. Na internet, as pessoas se mostram sem se mostrar, ocultam seus erros e limitações, desilusões e sentimentos ruins, para procurarem serem vistas e amadas por todos no mundo virtual, mesmo sendo um amor que apenas preenche o ego momentaneamente.
A internet é uma ferramenta única e a solução para vários problemas, entretanto, devemos lembrar que é uma liberdade que necessita de responsabilidade para o seu uso, pois a pessoa imatura utiliza mal essa liberdade, o que pode ocasionar sérias conseqüências. A maldade não está na internet, mas sim na cabeça dos homens.


Rodrigo Grilo

Tu e eu - Luis Fernando Veríssimo

Tu e eu
Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.
Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobo
eu sou mais albônico.
Tu, fão.
Eu, fônico.
És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu, piniquim.
Eu, ropeu.
Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu, multo.
Eu, carístico.
És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu, cano.
Eu, clidiano.
Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu, tano.
Eu, femismo.

(Texto enviado por Rodrigo Grilo)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Cordel de memórias - parte II

Ei, você, preste muita atenção:
Pois agora vou lhe dizer
Como em minha vida
Entrou das histórias a contação
O ato ancestral e mágico
Que encanta o coração

Meu pai, nordestino de nascimento,
Homem de poucas letras
Mas de muito conhecimento
Muitas e muitas noites
Com versos de cordel
Fazia meu divertimento

Eram histórias fascinantes
De trancoso dizia ele,
De mulheres tão arretadas
Que no diabo davam até nó
De homens tão espertos que aos
Enganavam só restava a dó

E as histórias ficaram
Durante algum tempo
Em mim caladas
Até que alguém me disse:
Ei acorda, história é pra ser contada!
Vem aprender com uma certa garotada....

A garotada em questão
Era de fato uma mágica trupe
Crianças contadoras de histórias
Encantadores da palavra
Comandados por duas fadas
Eram os meninos do Tuerarup

E descobri em mim então
Um bicho que não se cala
Que transborda e se espalha
Que entra por uma porta
E sai por outra
E se mostra pela fala.

E agora de conto em conto
Vivo aumentando um ponto
Pontos na teia do texto
Pontos na teia da vida
E se mais você quiser saber?
Deixa que depois eu te conto...

Ana Cunha

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Marajó

Embalados pela baía morada de Igara, senhora das águas, que nos convidou a mergulhar nas águas do rio-mar e voltarmos grávidos de histórias...

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

PRÊMIO DARDOS

Como somos contadores de histórias recebemos com encantamento a indicação ao Prêmio Dardos pelo amigo Franz do blog www.esteblogminharua.blogspot.com, lembrando que a ele cabe grande parte do crescimento deste blog, pacientemente ajudou-nos a desvendar o ciberespaço, local de morada também das histórias e poesias.Se fossemos comparar nosso estágio de desenvolvimento enquanto blogueiros com situações reais, poderíamos dizer que alfabeticamente falando estamos no pré-silábico, ou ainda no desenvolvimento de um ser humano nos encontramos recebendo o leite materno.As comparações ilustram que o universo digital muitas vezes parece distante dos que não estão lotados no laboratório de informática, pensamento enganoso,pois cá estamos nós, entre a roda de histórias ao redor da fogueira, e a ciranda dos bytes também a narrar.E como quem conta um conto aumenta um ponto, estamos puxando mais quinze fios para tecer esta rede de vida!Segue os quinze blogs indicados pelo Grupo de contadores de histórias.

domingo, 14 de setembro de 2008

Vovozinha já velhinha, cinturinha de retrós, dá uma volta na cozinha e traz um café pra nós - Memória de Joana


O meu primeiro contato com a magia das palavras foi através de meu pai, o senhor Ananizio, exímio contador de histórias e um talento incomum para brincar com as palavras. Parlendas, adivinhações, piadas e trava-línguas sempre fizeram parte de minha vida devido ao seu empenho, pois estava disponível a qualquer momento para uma brincadeira. Se queria café, pedia: - Vovozinha já velhinha, cinturinha de retrós, dá uma volta na cozinha e traz um café pra nós.
Lembro que ele me desafiava com trava-línguas complicados... me contava histórias à noite, quando deitávamos na rede para dormir e a escuridão só não era total por causa da luz de uma pequena lamparina. Eu era, e ainda sou, muito medrosa e não deixava meu pai dormir antes de mim. Se ele fechasse os olhos eu logo perguntava se ele estava dormindo, como a resposta era negativa eu completava, então abra os seus olhos. E seguíamos assim até eu pegar no sono.
Papai contava histórias belíssimas, com príncipes e princesas, algumas pavorosas como a de João e Maria e seus cachorros Rompe-mato, Quebra-ferro e Ouve-longe. Eu prestava muita atenção e me deliciava com suas narrativas. Tinha ainda as histórias das visagens que a minha mãe "via", papai não acreditava em visagens e desafiava-as a aparecerem para ele. Perdi a conta de quantas vezes ele levantava, lanterna em punho (ele sempre dormia com uma enorme lanterna debaixo da rede), e chamava as visagens, nunca nenhuma apareceu. E olhem que lá em casa tinha um cômodo conhecido como o quartinho da visagem. Ninguém entrava sozinho naquele quarto, exceto meu pai.
Depois que aprendi a ler comecei a buscar nos livros as histórias de princesas, conheci os contos de fadas e me apaixonei. Também gosto muito de histórias de assombração. Quando elas terminam, costumo ficar com medo por mais uns três ou quatro dias. Ele aumenta quando a noite chega ou fico sozinha, é um medo gostoso, se é que o medo pode ser gostoso.
No início de minha adolescência eu fui leitora assídua da Bíblia, lia todos os dias alguns capítulos. Nessa época eu queria estar na rua brincando, mas meu pai, sempre meu pai, me obrigava a ficar velando a sua sesta (éramos oito irmãos, mas ele chamava eu). Depois do almoço ele deitava numa rede e eu tinha que ficar embalando e lendo a Bíblia até ele dormir. Puxa, como ele demorava para dormir. Eu começava a ler baixinho e parava, pensando que ele já estava dormindo. Que nada! Ele fazia "hum!" bem alto e eu já sabia que era para continuar lendo que ele ainda estava acordado. Acabei conhecendo em detalhes esse livro maravilhoso.
Hoje meu pai já está velho e doente, mas não descuida do meu "aprendizado". Sempre que vou visitá-lo ele pede que eu leia as bulas de seus remédios, e a leitura tem que ser feita em voz alta e do texto completo com todos aqueles nomes complicados que eu nunca sei o significado. Depois da leitura eu peço que me conte alguma história, ele ri e diz que já não consegue. Eu insisto e ele acaba contando, às vezes ele se perde e minha mãe ajuda-o. A doença tentou, mas não conseguiu calar por completo a voz da pessoa que me introduziu no rol dos amantes da leitura e, com o seu jeito engraçado de narrar, papai me encanta até hoje.
E como filha de peixe, peixinho é, eu não resisti e aceitei com muito agrado o convite para fazer parte de uma turma especial, formada por pessoas maravilhosas, seres encantados, que habitam nas vozes que se propagam pelo vento levando aventuras e desventuras ao bel-prazer. Estou falando do grupo Ayvu Rapyta de contadores de histórias e espero proporcionar emoção e divertimento aos ouvintes que encontrar pela frente.

Joana Martins

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Memórias do Marajó

As férias de julho da minha infância possuíam destino certo, a Ilha do Marajó, em Soure. Eram dias vividos de forma intensa e cheios de alegria, por uma criança serelepe que se reencontrava com a primada toda. Lembro-me que viajávamos todos juntos no dia 30 de junho, claro, para aproveitar o mês todinho sem perder um dia. Nossos avôs nos esperavam todo ano, ansiosos como nós. Minha avó uma autêntica marajoara tinha as lendas e causos daquela terrinha na ponta da língua, já o vovô aposentado da marinha, divagava na mesa sobre sua vida militar e falava de figuras hilárias que nunca conhecemos, nos divertíamos a beça.
Depois do jantar as seis da tarde, pontualidade exigida pelo meu avô, nos púnhamos a ouvir histórias da vovó na calçada. E então ela começava, falava da mulher cheirosa que aparecia na praia do mata-fome; da cobra grande do rio Paracauari e seus três fios de cabelo; do danado do saci, curupira, o toco da morte, ah, esse eu me lembro bem, quando ela contava essa história me arrepiava todo. Sentados na calçada víamos ao fundo da 5º rua do bairro de São José o rio, sabíamos muito bem quando a maré estava enchendo ou secando. Minha avó falava desse toco demonstrando também um certo medo, dizia que quando a maré estava enchendo ou secando ele passava contra a maré e bem no meio do rio, isso queria dizer que neste dia alguém iria morrer naquelas águas. Nós, moleques danados loucos por banho de rio ficávamos morrendo de medo. E pra dar mais medo, a vovó ainda dizia: “Um dia desses foi o neto da D. Joana lá do bairro novo”. Eita que nós ficávamos pálidos com os olhos esbugalhados. Será que um dia vou ver o “toco da morte”? Ser ver prometo não entrar na água, valei-me Nazica! Ao mesmo tempo em que temia, tinha curiosidade, às vezes cansado de tomar banho, me sentava na beira do rio e ficava olhando bem para o meio esperando ver o toco passar. Causos da infância que aguçaram e muito a minha imaginação.
Fazia sempre questão de ouvir as histórias de minha avó, esperava ansioso. Com o passar dos tempos meus primos foram deixando de lado, mas eu estava ali, sempre à espera. Quando ela ia lavar louça ficava lá sentado, pronto para ouvir novamente as lendas do Marajó, e das Mangueiras, onde minha eles viveram antes, onde meu pai viveu sua infância. E aí lá vinham novas histórias, “o rabudo” das matas das Mangueiras que assustava a todos, inclusive ao meu pai que me confessou esse medo de criança.
Foi então me remetendo à infância e as minhas vivências no Marajó, ao quintal com patos, galinhas, jabutis e porcos da casa dos meus avôs; abrindo o baú das minhas memórias, que vi então na Dona Luiza, minha avó, a primeira contadora de história da minha vida, é ela a responsável por aquecer, desde a minha meninice a paixão pelas histórias.
Hoje os tempos são outros, não posso mais viver da mesma forma as maravilhosas férias no Marajó, as visitas a casa dos meus amados avôs ficaram mais distantes. Mas as histórias, ah! esses causos que se misturam entre o mundo real e imaginário da minha infância, fazem com que a chama nunca se apague. Recordar esses causos é reviver a doce fase da vida.
Ei!Continuo acreditando piamente nas histórias da vovó. Por falar nisso, alguém aí tem notícias dos fios de cabelo da cobra grande?

Rodrigo Antônio.