Tu e eu
Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.
Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobo
eu sou mais albônico.
Tu, fão.
Eu, fônico.
És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu, piniquim.
Eu, ropeu.
Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu, multo.
Eu, carístico.
És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu, cano.
Eu, clidiano.
Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu, tano.
Eu, femismo.
(Texto enviado por Rodrigo Grilo)
Ayvu Rapyta - Palavra Habitada
Somos um grupo de contadores de histórias
que tem como fio condutor as narrativas contadas e costuradas na roca do tempo das culturas.
Buscamos no prazer das leituras, habitar com sonho e magia no coração das pessoas. www.ayvurapyta@gmail.com e também no facebook
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Cordel de memórias - parte II
Ei, você, preste muita atenção:
Pois agora vou lhe dizer
Como em minha vida
Entrou das histórias a contação
O ato ancestral e mágico
Que encanta o coração
Meu pai, nordestino de nascimento,
Homem de poucas letras
Mas de muito conhecimento
Muitas e muitas noites
Com versos de cordel
Fazia meu divertimento
Eram histórias fascinantes
De trancoso dizia ele,
De mulheres tão arretadas
Que no diabo davam até nó
De homens tão espertos que aos
Enganavam só restava a dó
E as histórias ficaram
Durante algum tempo
Em mim caladas
Até que alguém me disse:
Ei acorda, história é pra ser contada!
Vem aprender com uma certa garotada....
A garotada em questão
Era de fato uma mágica trupe
Crianças contadoras de histórias
Encantadores da palavra
Comandados por duas fadas
Eram os meninos do Tuerarup
E descobri em mim então
Um bicho que não se cala
Que transborda e se espalha
Que entra por uma porta
E sai por outra
E se mostra pela fala.
E agora de conto em conto
Vivo aumentando um ponto
Pontos na teia do texto
Pontos na teia da vida
E se mais você quiser saber?
Deixa que depois eu te conto...
Ana Cunha
Pois agora vou lhe dizer
Como em minha vida
Entrou das histórias a contação
O ato ancestral e mágico
Que encanta o coração
Meu pai, nordestino de nascimento,
Homem de poucas letras
Mas de muito conhecimento
Muitas e muitas noites
Com versos de cordel
Fazia meu divertimento
Eram histórias fascinantes
De trancoso dizia ele,
De mulheres tão arretadas
Que no diabo davam até nó
De homens tão espertos que aos
Enganavam só restava a dó
E as histórias ficaram
Durante algum tempo
Em mim caladas
Até que alguém me disse:
Ei acorda, história é pra ser contada!
Vem aprender com uma certa garotada....
A garotada em questão
Era de fato uma mágica trupe
Crianças contadoras de histórias
Encantadores da palavra
Comandados por duas fadas
Eram os meninos do Tuerarup
E descobri em mim então
Um bicho que não se cala
Que transborda e se espalha
Que entra por uma porta
E sai por outra
E se mostra pela fala.
E agora de conto em conto
Vivo aumentando um ponto
Pontos na teia do texto
Pontos na teia da vida
E se mais você quiser saber?
Deixa que depois eu te conto...
Ana Cunha
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
PRÊMIO DARDOS
Como somos contadores de histórias recebemos com encantamento a indicação ao Prêmio Dardos pelo amigo Franz do blog www.esteblogminharua.blogspot.com, lembrando que a ele cabe grande parte do crescimento deste blog, pacientemente ajudou-nos a desvendar o ciberespaço, local de morada também das histórias e poesias.Se fossemos comparar nosso estágio de desenvolvimento enquanto blogueiros com situações reais, poderíamos dizer que alfabeticamente falando estamos no pré-silábico, ou ainda no desenvolvimento de um ser humano nos encontramos recebendo o leite materno.As comparações ilustram que o universo digital muitas vezes parece distante dos que não estão lotados no laboratório de informática, pensamento enganoso,pois cá estamos nós, entre a roda de histórias ao redor da fogueira, e a ciranda dos bytes também a narrar.E como quem conta um conto aumenta um ponto, estamos puxando mais quinze fios para tecer esta rede de vida!Segue os quinze blogs indicados pelo Grupo de contadores de histórias.domingo, 14 de setembro de 2008
Vovozinha já velhinha, cinturinha de retrós, dá uma volta na cozinha e traz um café pra nós - Memória de Joana
O meu primeiro contato com a magia das palavras foi através de meu pai, o senhor Ananizio, exímio contador de histórias e um talento incomum para brincar com as palavras. Parlendas, adivinhações, piadas e trava-línguas sempre fizeram parte de minha vida devido ao seu empenho, pois estava disponível a qualquer momento para uma brincadeira. Se queria café, pedia: - Vovozinha já velhinha, cinturinha de retrós, dá uma volta na cozinha e traz um café pra nós.
Lembro que ele me desafiava com trava-línguas complicados... me contava histórias à noite, quando deitávamos na rede para dormir e a escuridão só não era total por causa da luz de uma pequena lamparina. Eu era, e ainda sou, muito medrosa e não deixava meu pai dormir antes de mim. Se ele fechasse os olhos eu logo perguntava se ele estava dormindo, como a resposta era negativa eu completava, então abra os seus olhos. E seguíamos assim até eu pegar no sono.
Papai contava histórias belíssimas, com príncipes e princesas, algumas pavorosas como a de João e Maria e seus cachorros Rompe-mato, Quebra-ferro e Ouve-longe. Eu prestava muita atenção e me deliciava com suas narrativas. Tinha ainda as histórias das visagens que a minha mãe "via", papai não acreditava em visagens e desafiava-as a aparecerem para ele. Perdi a conta de quantas vezes ele levantava, lanterna em punho (ele sempre dormia com uma enorme lanterna debaixo da rede), e chamava as visagens, nunca nenhuma apareceu. E olhem que lá em casa tinha um cômodo conhecido como o quartinho da visagem. Ninguém entrava sozinho naquele quarto, exceto meu pai.
Depois que aprendi a ler comecei a buscar nos livros as histórias de princesas, conheci os contos de fadas e me apaixonei. Também gosto muito de histórias de assombração. Quando elas terminam, costumo ficar com medo por mais uns três ou quatro dias. Ele aumenta quando a noite chega ou fico sozinha, é um medo gostoso, se é que o medo pode ser gostoso.
No início de minha adolescência eu fui leitora assídua da Bíblia, lia todos os dias alguns capítulos. Nessa época eu queria estar na rua brincando, mas meu pai, sempre meu pai, me obrigava a ficar velando a sua sesta (éramos oito irmãos, mas ele chamava eu). Depois do almoço ele deitava numa rede e eu tinha que ficar embalando e lendo a Bíblia até ele dormir. Puxa, como ele demorava para dormir. Eu começava a ler baixinho e parava, pensando que ele já estava dormindo. Que nada! Ele fazia "hum!" bem alto e eu já sabia que era para continuar lendo que ele ainda estava acordado. Acabei conhecendo em detalhes esse livro maravilhoso.
Hoje meu pai já está velho e doente, mas não descuida do meu "aprendizado". Sempre que vou visitá-lo ele pede que eu leia as bulas de seus remédios, e a leitura tem que ser feita em voz alta e do texto completo com todos aqueles nomes complicados que eu nunca sei o significado. Depois da leitura eu peço que me conte alguma história, ele ri e diz que já não consegue. Eu insisto e ele acaba contando, às vezes ele se perde e minha mãe ajuda-o. A doença tentou, mas não conseguiu calar por completo a voz da pessoa que me introduziu no rol dos amantes da leitura e, com o seu jeito engraçado de narrar, papai me encanta até hoje.
E como filha de peixe, peixinho é, eu não resisti e aceitei com muito agrado o convite para fazer parte de uma turma especial, formada por pessoas maravilhosas, seres encantados, que habitam nas vozes que se propagam pelo vento levando aventuras e desventuras ao bel-prazer. Estou falando do grupo Ayvu Rapyta de contadores de histórias e espero proporcionar emoção e divertimento aos ouvintes que encontrar pela frente.
Joana Martins
Lembro que ele me desafiava com trava-línguas complicados... me contava histórias à noite, quando deitávamos na rede para dormir e a escuridão só não era total por causa da luz de uma pequena lamparina. Eu era, e ainda sou, muito medrosa e não deixava meu pai dormir antes de mim. Se ele fechasse os olhos eu logo perguntava se ele estava dormindo, como a resposta era negativa eu completava, então abra os seus olhos. E seguíamos assim até eu pegar no sono.
Papai contava histórias belíssimas, com príncipes e princesas, algumas pavorosas como a de João e Maria e seus cachorros Rompe-mato, Quebra-ferro e Ouve-longe. Eu prestava muita atenção e me deliciava com suas narrativas. Tinha ainda as histórias das visagens que a minha mãe "via", papai não acreditava em visagens e desafiava-as a aparecerem para ele. Perdi a conta de quantas vezes ele levantava, lanterna em punho (ele sempre dormia com uma enorme lanterna debaixo da rede), e chamava as visagens, nunca nenhuma apareceu. E olhem que lá em casa tinha um cômodo conhecido como o quartinho da visagem. Ninguém entrava sozinho naquele quarto, exceto meu pai.
Depois que aprendi a ler comecei a buscar nos livros as histórias de princesas, conheci os contos de fadas e me apaixonei. Também gosto muito de histórias de assombração. Quando elas terminam, costumo ficar com medo por mais uns três ou quatro dias. Ele aumenta quando a noite chega ou fico sozinha, é um medo gostoso, se é que o medo pode ser gostoso.
No início de minha adolescência eu fui leitora assídua da Bíblia, lia todos os dias alguns capítulos. Nessa época eu queria estar na rua brincando, mas meu pai, sempre meu pai, me obrigava a ficar velando a sua sesta (éramos oito irmãos, mas ele chamava eu). Depois do almoço ele deitava numa rede e eu tinha que ficar embalando e lendo a Bíblia até ele dormir. Puxa, como ele demorava para dormir. Eu começava a ler baixinho e parava, pensando que ele já estava dormindo. Que nada! Ele fazia "hum!" bem alto e eu já sabia que era para continuar lendo que ele ainda estava acordado. Acabei conhecendo em detalhes esse livro maravilhoso.
Hoje meu pai já está velho e doente, mas não descuida do meu "aprendizado". Sempre que vou visitá-lo ele pede que eu leia as bulas de seus remédios, e a leitura tem que ser feita em voz alta e do texto completo com todos aqueles nomes complicados que eu nunca sei o significado. Depois da leitura eu peço que me conte alguma história, ele ri e diz que já não consegue. Eu insisto e ele acaba contando, às vezes ele se perde e minha mãe ajuda-o. A doença tentou, mas não conseguiu calar por completo a voz da pessoa que me introduziu no rol dos amantes da leitura e, com o seu jeito engraçado de narrar, papai me encanta até hoje.
E como filha de peixe, peixinho é, eu não resisti e aceitei com muito agrado o convite para fazer parte de uma turma especial, formada por pessoas maravilhosas, seres encantados, que habitam nas vozes que se propagam pelo vento levando aventuras e desventuras ao bel-prazer. Estou falando do grupo Ayvu Rapyta de contadores de histórias e espero proporcionar emoção e divertimento aos ouvintes que encontrar pela frente.
Joana Martins
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Memórias do Marajó
As férias de julho da minha infância possuíam destino certo, a Ilha do Marajó, em Soure. Eram dias vividos de forma intensa e cheios de alegria, por uma criança serelepe que se reencontrava com a primada toda. Lembro-me que viajávamos todos juntos no dia 30 de junho, claro, para aproveitar o mês todinho sem perder um dia. Nossos avôs nos esperavam todo ano, ansiosos como nós. Minha avó uma autêntica marajoara tinha as lendas e causos daquela terrinha na ponta da língua, já o vovô aposentado da marinha, divagava na mesa sobre sua vida militar e falava de figuras hilárias que nunca conhecemos, nos divertíamos a beça.Depois do jantar as seis da tarde, pontualidade exigida pelo meu avô, nos púnhamos a ouvir histórias da vovó na calçada. E então ela começava, falava da mulher cheirosa que aparecia na praia do mata-fome; da cobra grande do rio Paracauari e seus três fios de cabelo; do danado do saci, curupira, o toco da morte, ah, esse eu me lembro bem, quando ela contava essa história me arrepiava todo. Sentados na calçada víamos ao fundo da 5º rua do bairro de São José o rio, sabíamos muito bem quando a maré estava enchendo ou secando. Minha avó falava desse toco demonstrando também um certo medo, dizia que quando a maré estava enchendo ou secando ele passava contra a maré e bem no meio do rio, isso queria dizer que neste dia alguém iria morrer naquelas águas. Nós, moleques danados loucos por banho de rio ficávamos morrendo de medo. E pra dar mais medo, a vovó ainda dizia: “Um dia desses foi o neto da D. Joana lá do bairro novo”. Eita que nós ficávamos pálidos com os olhos esbugalhados. Será que um dia vou ver o “toco da morte”? Ser ver prometo não entrar na água, valei-me Nazica! Ao mesmo tempo em que temia, tinha curiosidade, às vezes cansado de tomar banho, me sentava na beira do rio e ficava olhando bem para o meio esperando ver o toco passar. Causos da infância que aguçaram e muito a minha imaginação.
Fazia sempre questão de ouvir as histórias de minha avó, esperava ansioso. Com o passar dos tempos meus primos foram deixando de lado, mas eu estava ali, sempre à espera. Quando ela ia lavar louça ficava lá sentado, pronto para ouvir novamente as lendas do Marajó, e das Mangueiras, onde minha eles viveram antes, onde meu pai viveu sua infância. E aí lá vinham novas histórias, “o rabudo” das matas das Mangueiras que assustava a todos, inclusive ao meu pai que me confessou esse medo de criança.
Foi então me remetendo à infância e as minhas vivências no Marajó, ao quintal com patos, galinhas, jabutis e porcos da casa dos meus avôs; abrindo o baú das minhas memórias, que vi então na Dona Luiza, minha avó, a primeira contadora de história da minha vida, é ela a responsável por aquecer, desde a minha meninice a paixão pelas histórias.
Hoje os tempos são outros, não posso mais viver da mesma forma as maravilhosas férias no Marajó, as visitas a casa dos meus amados avôs ficaram mais distantes. Mas as histórias, ah! esses causos que se misturam entre o mundo real e imaginário da minha infância, fazem com que a chama nunca se apague. Recordar esses causos é reviver a doce fase da vida.
Ei!Continuo acreditando piamente nas histórias da vovó. Por falar nisso, alguém aí tem notícias dos fios de cabelo da cobra grande?
Rodrigo Antônio.
MEMÓRIAS QUE O TEMPO NÃO APAGOU
Minha formação como leitor se deu em primeiro, com a leitura das paisagens que guardo das aventuras na pequenice de minha infância.Que giram como roda e cata-vento e me levam voando no tempo, a pousar bem no campo de futebol em terra batida, cercado por duas mangueiras e uma jaqueira, que frondosas nos agraciavam com suas sombras e um vento que nos lambia o rosto.Era o lugar onde a professora Sônia nos levava em algumas manhãs.Manhãs essas que eu aguardava com ansiedade, pois não havia dia certo, podia ser qualquer dia, o que me fazia ficar mais ansioso.Talvez ela, a professora, não se desse conta que me proporcionava uma leitura singular dos galhos das árvores embalando seus frutos como mãe que embala os filhos e que nos faziam arregalar os olhos e encher de água a boca no desejo de deliciá-los.Da sensação de liberdade que a extensão do campo me dava, diferente da sala apertada que me fazia sentir como um passarinho, não os que eu via no campo livre, mas os engaiolados.Engraçado é que até mesmo o olhar da professora mudava era como se uma mágica acontecesse é tudo mudava nesse dia.
Deve parecer estranho, mas tenho falado de leitura sem se quer ter citado os livros é como a maioria dos Brasileiros eles me foram negado durante muito tempo, logo tive pouco contato com os livros, é devo isso à falta de maior incentivo dos meus professores, pois quase todos falavam da importância da leitura, no entanto dificilmente os viam com livros na mão, exceto os didáticos.
Já no ensino médio a conheci, era a professora Graça essa sim era um espelho que eu adorava admirar e tomar como exemplo.Vivia a volta com os livros, trazia sempre novidades pra turma, falava da leitura com encantamento e brilho nos olhos, nunca visto por mim em outros professores.E o momento de leitura que nunca esqueço foi quando ela nos apresentou “O bicho”, de Manuel Bandeira, começava ai a efervesce a criticidade dentro de mim.
O Bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Manuel Bandeira
E depois outras maravilhas foram atravessando meu caminho e me alimentando, não posso deixar de citar Roseli Sousa e Janete Borges dois encantos que me abriram o coração e a alma para o universo mágico e fascinante dos livros.
Hoje emergem sonhos de rios, que nunca antes imaginei navegar, nutrindo e povoando meu imaginário embalando em ondas as minhas memórias, que efervescem na troca singular e coletiva em beleza de relacionar-se com o outro (os) meus estimuladores fieis Marçal, Andréa e Cléa que como finos e seletos gravetos não deixam apagar a chama que apresentam-se em labaredas esvoaçantes e que saltam em vôo, pingando fogo em outros seres também tocados, assim sigo espalhando e repassando Histórias e estórias narradas do coração de minhas vivências na simplicidade da vida cabocla, minhas origens em experiências que maturam meu ser e me impulsionam a cada vez mais mergulhar fundo nesse universo de encantamento, pelo desejo de descobrir, redescobrir, agora em grupo contando e povoando o imaginário de quem ouve a docialidade das escritas grafadas que ecoam nas vozes que conto-a-dores e amores, que causam arrepios e abrem sorrisos. Assim vou rabiscando em espiral as paginas inacabadas de cada dia de minha vida de contador.
Gilberto Silva
domingo, 7 de setembro de 2008
Cordel da memória
Ei, você, preste muita atenção:Pois agora vou lhe dizer
Como em minha vida
Entrou das histórias a contação.
Meu pai, nordestino de nascimento
Muitas e muitas noites
Com versos de cordel
Fazia meu divertimento
Eram histórias fascinantes
De trancoso dizia ele ,
De mulheres tão arretadas
Que no diabo davam até nó
De homens tão espertos
Que aos enganavam
Só restava a dó.
E as histórias ficaram
Durante algum tempo
Em mim caladas
Até que alguém me disse:
Ei, acorda, história é pra ser contada!
E descobri em mim então
Um bicho que não se cala
Que entra por uma porta
E sai por outra
E se mostra pela fala.
E agora de conto em conto
Vivo aumentando um ponto
E se mais você quiser saber?
Deixa que depois eu te conto...
Ana Cunha
sábado, 6 de setembro de 2008
Porque conto histórias.
Porque conto histórias...
Nonato Marçal – Eu acredito na humanidade, até me provando o contrário. Eu creio!
Ana Selma – Amo a literatura e tive a sorte de encontrar outra pessoa por ela apaixonada, que sem querer querendo encorajou-me e assim comecei a caminhar nesse caminho.
Luiza – Para entrar no mundo da imaginação.
Eny – É uma maneira de transmitir alegrias.
Cléa Magnólia – Porque é magia, é memória de passados e futuros que não vivi e não viverei se deixando eternizar... pela minha criança perpetuada pelo sol, pela lua, pela água, pelo fogo...
Adrine – Para manter aquecida a chama.
Maiolina – Porque amo as palavras que voam ao encontro do outro.
Sônia – Pelo prazer de saborear palavras, pelo sentimento poético que proporciona a mim e ao outro, pela troca do ouvir, falar e encantar pessoas.
Roseni - Contar é: Se apaixonar. Tanto quem conta quanto quem ouve. Conto histórias porque gosto de ouvir outras pessoas contando, me alegro, me emociono. Então, assim como sinto, também quero fazer com que os outros se emocionem se apaixonem pelas histórias que conto.
Rodrigo – Conto histórias para compartilhar vida, sentimentos, experiências... Conto história porque me sinto feliz e vivo de forma mais intensa a alteridade.
Gilberto – Alimentar a alma e a sabedoria.
Vânia Situba – Conto porque o instante existe, para não deixar ninguém triste. Conto para deixar na mente e no coração a semente da imaginação.
Nazaré Monteiro – Fazer uma criança sorrir faz parte da minha vida.
Joana – Eu conto histórias porque elas mexem com as pessoas você sente a cumplicidade no olhar dos ouvintes. É um momento de interação total, um misto de prazer para todos.
Paulo – Contar histórias é uma forma de construir significados, sentidos para vida (e para morte!)
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
O rito de nascimento do nome do grupo Ayvu Rapyta
23.08.2008Sábado de sol e calor no intenso verão amazônico. Tempo propicio para um nascimento. Os contadores de história se reúnem em uma casinha no bosque... Bosque que fica bem no coração da cidade de Belém do Pará.
Pouco a pouco, um a um vem chegando e se aconchegando... Era dia de escolher um nome para o grupo. A escolha deu-se em um ambiente mágico, bem de acordo com o espírito dos contadores que aqui habitam.
Música no ar: ... Andar com Fé eu vou, a Fé não costuma falhar... Na vivência dos pés, dançamos com alegria para liberação do corpo e do espírito... Dançar é tão bom!
Pés descalços, contornados, pintados e recortados deixaram pegadas, marcas no chão como um convite para seguir em frente, sempre em frente... E, como as mulheres de algumas tribos africanas, saímos para o bosque em busca de um Nome, de um som, de uma palavra, fomos nos embrenhando entre a vegetação do bosque. Abraçamos árvores, colhemos flores, encontramos gravetos, descobrimos semente... Silenciosamente escutamos nossos corações... Retornamos, seguindo nossas pegadas.
Sentamos em círculo no chão. E a assembléia começou. A confraria é ouvida. Sete nomes são sugeridos. Sete nomes são votados. Nomes cheios de significado, cheios de beleza, cheios de sonoridade... Há! Que pena ter que escolher um só... É realizada a votação e um nome vem surgindo, sussurrado, criando corpo, criando forma... Ayvu Rapyta!
O grupo foi como uma gestante que nesses quase nove meses, desde a fecundação do grupo, aguardou com momentos alternados de calma e ansiedade o nascimento de seu bebê. Não queríamos uma criança prematura, e no momento certo ela aporta. Nasce a criança! Ayvu Rapyta é o nome.
Cheio de poesia, surgiu sob uma chuva de sementes “corrupio”...
Ayvu Rapyta!
Então, circularmente nos dançamos. Dançamos em agradecimento. Dançamos em louvor a natureza, e de seus elementos essenciais: água, fogo, terra e ar. No centro da roda “Os fundamentos do ser”, “Os fundamentos da palavra habitada”... Ayvu Rapyta.
Nome forte, que a principio provoca um estranhamento na pronúncia, e nem poderia ser diferente, pois na gramática indígena, existem algumas características fonéticas na estrutura da língua, totalmente diferente das da nossa língua portuguesa.
Um pássaro canta lá fora... Cai uma chuvinha leve... O batismo é realizado... Ayvu Rapyta!
Saímos de mãos dadas para entre as árvores, para que o espírito índio, ancestral dos primeiros moradores dessa terra, viesse se juntar a nós e assoprasse em nossos ouvidos o Ayvu Rapyta... Ayvu Rapyta... Ayvu Rapyta...
O nome pulsava em nossas gargantas no mesmo ritmo de nossos corações. E assim pudemos começamos a criar intimidade com o Nome, a segurar no colo a criança parida...
Kaka Werá Jecupé, em seu livro A Terra dos mil povos, diz:
O termo Ayvu significa “alma, ser, som habitado, palavra habitada”.
Ayvu Rapyta, passado de boca a boca com a responsabilidade do fogo sobre a noite estrelada, e através das cerimônias e encontros por que tenho passado com os ancestrais na terra e no sonho. (...) As culturas indígenas são guardiãs de uma memória coletiva. Nas sociedades tradicionais e indígenas cabe ao rito, como espaço simbólico de manifestação do sagrado, a incessante tarefa de dominar ou afastar o caos e estabelecer a ordem, por meio da dramatização coletiva. Dramatização ritual, definindo nossa identidade coletiva como grupo social e grupo de contadores.
Nós, contadores de história do Norte do Brasil, assentados sobre esse gigantesco tapete verde que é a Amazônia, reunidos como grupo, como força que representamos, frutos da diversidade cultural, social e étnica desse povo formado de índios, caboclos, ribeirinhos, camponeses e habitantes da metrópole, temos uma essência mítica. Guardamos no baú de nossa memória coletiva as lendas e histórias que habitam desde tempos imemoriais nossas terras, nossos rios, nossa floresta.
Sim, seguiremos contado histórias. Esse é o nosso legado. Formar o elo contemporâneo que se estica e segura com uma das mãos, as mãos dos contadores do passado e estende a outra em direção aos contadores do futuro, para que eles possam seguir completando a mágica corrente que roda o mundo, que gira pelas eras contando histórias. Essa é a forma que encontramos de perpetuar nossas mais profundas raízes.
Histórias que aqui já estavam, se juntaram a outras que para aqui chegaram de muito, muito, longe... Histórias que seguirão adiante, sempre, sempre, nesse ir e vir do mar no qual navega a raça humana. Histórias que nos permitem respirar, tomar ar nesse fosso tão denso daquilo que chamamos realidade.
Definitivamente seguiremos contando histórias. Com a consciência que as histórias não têm fronteiras. Elas atravessam o tempo nas assas do vento, na voz de quem conta. Contando e levando sempre adiante, semeando com amor no ouvido, no coração e na imaginação das pessoas de todas as idades, o mistério, a magia e o encanto.
Cléa Palha
Setembro 2008
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