Ayvu Rapyta - Palavra Habitada
Somos um grupo de contadores de histórias
que tem como fio condutor as narrativas contadas e costuradas na roca do tempo das culturas.
Buscamos no prazer das leituras, habitar com sonho e magia no coração das pessoas.
www.ayvurapyta@gmail.com e também no facebook

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

MEMÓRIAS QUE O TEMPO NÃO APAGOU

Minha formação como leitor se deu em primeiro, com a leitura das paisagens que guardo das aventuras na pequenice de minha infância.Que giram como roda e cata-vento e me levam voando no tempo, a pousar bem no campo de futebol em terra batida, cercado por duas mangueiras e uma jaqueira, que frondosas nos agraciavam com suas sombras e um vento que nos lambia o rosto.Era o lugar onde a professora Sônia nos levava em algumas manhãs.Manhãs essas que eu aguardava com ansiedade, pois não havia dia certo, podia ser qualquer dia, o que me fazia ficar mais ansioso.
Talvez ela, a professora, não se desse conta que me proporcionava uma leitura singular dos galhos das árvores embalando seus frutos como mãe que embala os filhos e que nos faziam arregalar os olhos e encher de água a boca no desejo de deliciá-los.Da sensação de liberdade que a extensão do campo me dava, diferente da sala apertada que me fazia sentir como um passarinho, não os que eu via no campo livre, mas os engaiolados.Engraçado é que até mesmo o olhar da professora mudava era como se uma mágica acontecesse é tudo mudava nesse dia.
Deve parecer estranho, mas tenho falado de leitura sem se quer ter citado os livros é como a maioria dos Brasileiros eles me foram negado durante muito tempo, logo tive pouco contato com os livros, é devo isso à falta de maior incentivo dos meus professores, pois quase todos falavam da importância da leitura, no entanto dificilmente os viam com livros na mão, exceto os didáticos.
Já no ensino médio a conheci, era a professora Graça essa sim era um espelho que eu adorava admirar e tomar como exemplo.Vivia a volta com os livros, trazia sempre novidades pra turma, falava da leitura com encantamento e brilho nos olhos, nunca visto por mim em outros professores.E o momento de leitura que nunca esqueço foi quando ela nos apresentou “O bicho”, de Manuel Bandeira, começava ai a efervesce a criticidade dentro de mim.

O Bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Manuel Bandeira

E depois outras maravilhas foram atravessando meu caminho e me alimentando, não posso deixar de citar Roseli Sousa e Janete Borges dois encantos que me abriram o coração e a alma para o universo mágico e fascinante dos livros.
Hoje emergem sonhos de rios, que nunca antes imaginei navegar, nutrindo e povoando meu imaginário embalando em ondas as minhas memórias, que efervescem na troca singular e coletiva em beleza de relacionar-se com o outro (os) meus estimuladores fieis Marçal, Andréa e Cléa que como finos e seletos gravetos não deixam apagar a chama que apresentam-se em labaredas esvoaçantes e que saltam em vôo, pingando fogo em outros seres também tocados, assim sigo espalhando e repassando Histórias e estórias narradas do coração de minhas vivências na simplicidade da vida cabocla, minhas origens em experiências que maturam meu ser e me impulsionam a cada vez mais mergulhar fundo nesse universo de encantamento, pelo desejo de descobrir, redescobrir, agora em grupo contando e povoando o imaginário de quem ouve a docialidade das escritas grafadas que ecoam nas vozes que conto-a-dores e amores, que causam arrepios e abrem sorrisos. Assim vou rabiscando em espiral as paginas inacabadas de cada dia de minha vida de contador.

Gilberto Silva

domingo, 7 de setembro de 2008

Cordel da memória

Ei, você, preste muita atenção:
Pois agora vou lhe dizer
Como em minha vida
Entrou das histórias a contação.

Meu pai, nordestino de nascimento
Muitas e muitas noites
Com versos de cordel
Fazia meu divertimento

Eram histórias fascinantes
De trancoso dizia ele ,
De mulheres tão arretadas
Que no diabo davam até nó
De homens tão espertos
Que aos enganavam
Só restava a dó.

E as histórias ficaram
Durante algum tempo
Em mim caladas
Até que alguém me disse:
Ei, acorda, história é pra ser contada!

E descobri em mim então
Um bicho que não se cala
Que entra por uma porta
E sai por outra
E se mostra pela fala.

E agora de conto em conto
Vivo aumentando um ponto
E se mais você quiser saber?
Deixa que depois eu te conto...


Ana Cunha

sábado, 6 de setembro de 2008

Porque conto histórias.

Parte da vivência “Caminhar”

Porque conto histórias...


Nonato Marçal – Eu acredito na humanidade, até me provando o contrário. Eu creio!

Ana Selma – Amo a literatura e tive a sorte de encontrar outra pessoa por ela apaixonada, que sem querer querendo encorajou-me e assim comecei a caminhar nesse caminho.

Luiza – Para entrar no mundo da imaginação.

Eny – É uma maneira de transmitir alegrias.

Cléa Magnólia – Porque é magia, é memória de passados e futuros que não vivi e não viverei se deixando eternizar... pela minha criança perpetuada pelo sol, pela lua, pela água, pelo fogo...

Adrine – Para manter aquecida a chama.

Maiolina – Porque amo as palavras que voam ao encontro do outro.

Sônia – Pelo prazer de saborear palavras, pelo sentimento poético que proporciona a mim e ao outro, pela troca do ouvir, falar e encantar pessoas.

Roseni - Contar é: Se apaixonar. Tanto quem conta quanto quem ouve. Conto histórias porque gosto de ouvir outras pessoas contando, me alegro, me emociono. Então, assim como sinto, também quero fazer com que os outros se emocionem se apaixonem pelas histórias que conto.

Rodrigo – Conto histórias para compartilhar vida, sentimentos, experiências... Conto história porque me sinto feliz e vivo de forma mais intensa a alteridade.

Gilberto – Alimentar a alma e a sabedoria.

Vânia Situba – Conto porque o instante existe, para não deixar ninguém triste. Conto para deixar na mente e no coração a semente da imaginação.

Nazaré Monteiro – Fazer uma criança sorrir faz parte da minha vida.

Joana – Eu conto histórias porque elas mexem com as pessoas você sente a cumplicidade no olhar dos ouvintes. É um momento de interação total, um misto de prazer para todos.

Paulo – Contar histórias é uma forma de construir significados, sentidos para vida (e para morte!)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O rito de nascimento do nome do grupo Ayvu Rapyta

23.08.2008

Sábado de sol e calor no intenso verão amazônico. Tempo propicio para um nascimento. Os contadores de história se reúnem em uma casinha no bosque... Bosque que fica bem no coração da cidade de Belém do Pará.
Pouco a pouco, um a um vem chegando e se aconchegando... Era dia de escolher um nome para o grupo. A escolha deu-se em um ambiente mágico, bem de acordo com o espírito dos contadores que aqui habitam.
Música no ar: ... Andar com Fé eu vou, a Fé não costuma falhar... Na vivência dos pés, dançamos com alegria para liberação do corpo e do espírito... Dançar é tão bom!
Pés descalços, contornados, pintados e recortados deixaram pegadas, marcas no chão como um convite para seguir em frente, sempre em frente... E, como as mulheres de algumas tribos africanas, saímos para o bosque em busca de um Nome, de um som, de uma palavra, fomos nos embrenhando entre a vegetação do bosque. Abraçamos árvores, colhemos flores, encontramos gravetos, descobrimos semente... Silenciosamente escutamos nossos corações... Retornamos, seguindo nossas pegadas.
Sentamos em círculo no chão. E a assembléia começou. A confraria é ouvida. Sete nomes são sugeridos. Sete nomes são votados. Nomes cheios de significado, cheios de beleza, cheios de sonoridade... Há! Que pena ter que escolher um só... É realizada a votação e um nome vem surgindo, sussurrado, criando corpo, criando forma... Ayvu Rapyta!
O grupo foi como uma gestante que nesses quase nove meses, desde a fecundação do grupo, aguardou com momentos alternados de calma e ansiedade o nascimento de seu bebê. Não queríamos uma criança prematura, e no momento certo ela aporta. Nasce a criança! Ayvu Rapyta é o nome.
Cheio de poesia, surgiu sob uma chuva de sementes “corrupio”...
Ayvu Rapyta!

Então, circularmente nos dançamos. Dançamos em agradecimento. Dançamos em louvor a natureza, e de seus elementos essenciais: água, fogo, terra e ar. No centro da roda “Os fundamentos do ser”, “Os fundamentos da palavra habitada”... Ayvu Rapyta.
Nome forte, que a principio provoca um estranhamento na pronúncia, e nem poderia ser diferente, pois na gramática indígena, existem algumas características fonéticas na estrutura da língua, totalmente diferente das da nossa língua portuguesa.
Um pássaro canta lá fora... Cai uma chuvinha leve... O batismo é realizado... Ayvu Rapyta!
Saímos de mãos dadas para entre as árvores, para que o espírito índio, ancestral dos primeiros moradores dessa terra, viesse se juntar a nós e assoprasse em nossos ouvidos o Ayvu Rapyta... Ayvu Rapyta... Ayvu Rapyta...
O nome pulsava em nossas gargantas no mesmo ritmo de nossos corações. E assim pudemos começamos a criar intimidade com o Nome, a segurar no colo a criança parida...

Kaka Werá Jecupé, em seu livro A Terra dos mil povos, diz:

O termo Ayvu significa “alma, ser, som habitado, palavra habitada”.
Ayvu Rapyta, passado de boca a boca com a responsabilidade do fogo sobre a noite estrelada, e através das cerimônias e encontros por que tenho passado com os ancestrais na terra e no sonho. (...) As culturas indígenas são guardiãs de uma memória coletiva. Nas sociedades tradicionais e indígenas cabe ao rito, como espaço simbólico de manifestação do sagrado, a incessante tarefa de dominar ou afastar o caos e estabelecer a ordem, por meio da dramatização coletiva. Dramatização ritual, definindo nossa identidade coletiva como grupo social e grupo de contadores.

Nós, contadores de história do Norte do Brasil, assentados sobre esse gigantesco tapete verde que é a Amazônia, reunidos como grupo, como força que representamos, frutos da diversidade cultural, social e étnica desse povo formado de índios, caboclos, ribeirinhos, camponeses e habitantes da metrópole, temos uma essência mítica. Guardamos no baú de nossa memória coletiva as lendas e histórias que habitam desde tempos imemoriais nossas terras, nossos rios, nossa floresta.
Sim, seguiremos contado histórias. Esse é o nosso legado. Formar o elo contemporâneo que se estica e segura com uma das mãos, as mãos dos contadores do passado e estende a outra em direção aos contadores do futuro, para que eles possam seguir completando a mágica corrente que roda o mundo, que gira pelas eras contando histórias. Essa é a forma que encontramos de perpetuar nossas mais profundas raízes.
Histórias que aqui já estavam, se juntaram a outras que para aqui chegaram de muito, muito, longe... Histórias que seguirão adiante, sempre, sempre, nesse ir e vir do mar no qual navega a raça humana. Histórias que nos permitem respirar, tomar ar nesse fosso tão denso daquilo que chamamos realidade.
Definitivamente seguiremos contando histórias. Com a consciência que as histórias não têm fronteiras. Elas atravessam o tempo nas assas do vento, na voz de quem conta. Contando e levando sempre adiante, semeando com amor no ouvido, no coração e na imaginação das pessoas de todas as idades, o mistério, a magia e o encanto.

Cléa Palha
Setembro 2008

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Para um amigo que nunca soube de minha existência...

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles...
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me
Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles...
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos! A gente não faz amigos, reconhece-os.

(Vinícius de Moraes)

Existem pessoas que passam em nossas vidas e deixam marcas profundas, daquelas possuidoras de uma clarividência, sensibilidade, respeito ao ser humano e principalmente, uma enorme força interior, capaz de perceber o outro não como inferior, mas apenas como diferente.
O primeiro contato com uma destas pessoas aconteceu antes mesmo de “conhecê-lo”, foi quando visitei uma pequena parte do acervo do “Museu do Marajó” instalado no Museu do Estado do Pará. Levei três dias para visitá-lo completamente devido interesse suscitado. O museu completo fica localizado no município de Cachoeira do Arari. Os elementos da vida cotidiana marajoara encontravam-se de forma inteligente, bem humorada e regional. A cada coisa vista pensava em quem seria o idealizador, só poderia ser um autentico marajoara, nascido e criado naquele mundo de águas. Foi quando então li o nome “Giovanni Gallo” e logo vi que não se tratava de um nativo, mas como é possível um conhecimento tão profundo da alma do povo ribeirinho? Então fiquei com este nome em mente por um longo tempo, curiosamente precisava ouvir as histórias deste homem, como chegou aqui? De que maneira conseguiu o acervo do museu? Os depoimentos? As pesquisas? Seu dia-a-dia no arquipélago das águas!
O tempo passou só voltei a “encontrar-me” com Giovanni Gallo em 2001, quando conheci o Sr. Smith, dono da gráfica que imprimiu o jornal da escola em que eu trabalhava, ele contou-me que era amigo de um padre que havia feito uma pesquisa sobre os motivos ornamentais da cerâmica marajoara e editou num livro, e esse padre era o responsável pelo museu do Marajó. Não contive a alegria contando a fascinação sentida pelo museu e seu idealizador, descobrira naquele instante que Giovanni, era o Padre Gallo, que chegou por estes lados na década de 80 e nunca mais saiu.
Sr. Smith era o tesoureiro do museu, assim respondeu todas as indagações, por fim deu-me o exemplar do livro citado, e o convite para conhecer realmente o Museu do Marajó com seu acervo completo, era mais que um convite, era a possibilidade de falar com aquela pessoa que despertava tanto interesse em mim. O tempo foi passando repleto das intempéries da vida cotidiana e ate o dia de hoje para meu arrependimento eterno, não conheci o Museu.
Nas minhas andanças pelas livrarias descobri duas outras obras do Padre Gallo, “Marajó a ditadura da água” e “O homem que implodiu”. No entanto bastou ler o Marajó para meu encanto crescer pelo Padre Gallo. Quando aceitei o convite de “mergulhar” nas águas do Marajó com o Padre Gallo, é que percebi o sentido da expressão amor ao próximo e comprometimento, ele penetrou no universo daquele povo como ninguém! Aprendeu a conviver com animais, crenças, miséria, doenças, injustiças e com a ditadura imposta pelas águas, elementos que não são fáceis de experimentar, nem mesmo pelos daqui. Envolveu-se em muitas encrencas, como dizemos, por não fechar os olhos às injustiças feitas ao povo humilde.
O desejo de conhecer a cultura amazônica, desde as gírias, as tradições, as histórias, e as crenças criaram laços no padre, que acredito eu, fizeram dele um apaixonado pela cultura marajoara, senão como explicar a dedicação pelo Museu? No livro isto fica claro no capitulo intitulado “O pajé”, que narra sua visita a uma sessão de pajelança, em momento algum se observa no relato comentários depreciativos, preconceituosos, e sim a visão de um pesquisador, disposto a captar a essência, a beleza do ritual. O relato termina com o desabafo do Padre “Graças a Deus eu tive a sorte. Se o pajé tivesse dito que eu sou safado, ninguém, nem o Papa com uma carta encíclica, teria força bastante para reabilitar-me”, referindo-se ao fato de o pajé ter dito a todos durante o ritual que o padre era realmente virgem. Giovanni rendeu o devido respeito a uma autoridade para o povo que conserva suas raízes indígenas, mesmo freqüentando a igreja católica, o povo reverencia o pajé com suas puçangas representando esta ancestralidade.
E assim o livro virou um companheiro, de certa forma era como se “falasse” com o padre Gallo, ou melhor, ouvisse suas histórias, é esta a sensação tida, a leitura do livro trás de volta o tempo que sentava na escada da casa da vovó e ouvia as histórias de sua vida passadas no interior, desde as de assombrações, botos, até as de pescas, plantas, etc.
Deixei meu companheiro algum tempo guardado na estante, às vezes o tempo é cruel, não permite que possamos dedicar-nos ao que realmente nos trás contentamento.
Somente no dia 07 de março de 2003, resolvi rever meu companheiro, tinha que ir a UFPA resolver uns assuntos, lá o ambiente é inspirador, pensei em sentar na beira do rio, com aquela brisa fria do inverno amazônico, quem sabe ter a sorte de ver um boto boiando, muitas pessoas dizem que avistaram ali.
Saí de casa após o almoço, cheguei a UFPA e me dirigi a um banco na beira do rio, conforme tinha ansiado, tirei o “Marajó” da bolsa e abri sem escolher um capitulo especifico, foi este, “Quando Deus precisar de você”, tratando da morte nas visões do marajoara e do europeu. Para o europeu o morto não é acolhido, velado, entrega-se uma firma responsável para cuidar do funeral, mantendo-o longe da família. Já para o povo do marajó, segundo o Padre Gallo, o morto é rodeado de atenções pela família e vizinhos, orações, velas, flores, supertições, etc.
A leitura desse capitulo serviu de base para abrir o baú de minhas memórias, relembrando o que nos foi ensinado sobre a morte amazônica e seus rituais, neste momento senti um temor, de não conhecer pessoalmente o Padre Gallo, deu um aperto no coração, pois sabia da sua idade avançada, e novamente proferi as palavras, tenho medo que ele morra! Seria algo que não me perdoaria, e fiquei pensando na importância deste homem, na sua sabedoria, sua visão ampla de mundo, e na escolha pelo Marajó.
Foi somente quando cheguei em casa por volta das 18:30, liguei a tv para ouvir as noticias no jornal local, que recebi uma noticia que causaria impacto, naquela tarde o Padre Giovanni Gallo de 76 anos havia falecido, não acreditei, como poderia, o mundo do Marajó ainda precisavam muito dele, e eu que nem sequer o conheci, ouvi sua voz, conheci as outras histórias. Não sei o que aconteceu, posso chamar de coincidência, mas como explicar aquela tarde, minhas palavras, meus sentimentos, e a morte dele. A sensação de deixar de fazer o que deveria ser feito é horrível, paralisadora. Vi pela Tv o Sr. Smith, parecia estar cuidando dos trâmites legais para o sepultamento que será onde com certeza ele gostaria, no Museu, em Cachoeira, no Marajó, ele era um dos inúmeros amigos que o Padre Gallo possuía nesta terra que o acolheu, e que foi acolhida por ele, com certeza tais amigos hoje choram a perca irreparável deste mecenas do Marajó, alguns choram sua morte, mesmo sem ele nunca ter sabido da existência destes amigos.
Hoje o dia amanheceu cinza, triste, os passarinhos nem vieram cantar na arvore do quintal...Li na primeira pagina do jornal a seguinte matéria: “Morre italiano que deu a vida pelo Marajó”, pensei nos versos do poeta, “quando eu morrer, se eu não for pro céu, eu vou lá pro Marajó, montar num cavalo baio debaixo das cores do sol”.


Andréa Cozzi

Em 08/03/03

A BOCA BANGUELA DE UMA FADA DO MARAJÓ

Era inicio da década de 60 quando fiz minha primeira viagem nesse Planeta, viajei de barco de Santarém até a Ilha do Marajó na barriga de minha mãe, acompanhada de meu pai, minhas três irmãs e meus dois irmãos mais velhos. E foi lá pelas bandas de Breves que eu vim ao mundo, quis o destino que eu nascesse marajoara.
Não era grande nem pequena a morada da minha primeira infância, mas cabe direitinho na minha memória, e, é lá que me vejo menina bem pequenininha, com papai me chamando em tom brincalhão de “tapurú de seringueira”.
Era uma casa de madeira, bem ao lado de um campo onde a vista não alcançava o fim, casa com as “pernas altas” (pelo menos era assim que minha visão de criança percebia), que permitia que meus irmãos e eu invadíssemos o território de galos, galinhas e pintinhos que por ali viviam ciscando e nos metêssemos por de baixo de suas tábuas, entre suas “pernas mancas”, sem dúvidas era uma casa acolhedora de crianças. Tinha uma aconchegante varanda na frente que se estendia até um dos lados, varanda que mamãe mantinha limpinha e arrumada com cadeiras de vime, mesinhas com bibelôs e muitas plantas que eram plantadas principalmente em latas de leite vazias, e que eram distribuídas para embelezar e alegrar o espaço avarandado onde gostávamos de estar em diversas ocasiões.
Literalmente, foram esses dois espaços físicos, em cima e em baixo de casa, que me remeteram a um outro espaço até mais singular que esses espaços reais: o espaço do imaginário. Espaço que desempenhou, e até hoje desempenha, um papel importantíssimo em minha vida. Como somente as crianças sabem fazer, nós circulávamos simultaneamente e com leveza nesses dois espaços.
É justamente nesses espaços reais e imaginários que aparece na minha vida e de meus irmãos, a figura de uma velha cabocla marajoara, muito asseada, de chinelinhas nos pés, vestido de chita estampado de flores miudinha, cabelos brancos presos por pentes de “velha” em um cocó atrás da cabeça e a boca banguela, ela era uma fantástica contadora de histórias: Dona Erotildes. Há! Que cheiro bom de limpeza vinha da roupa que ela usava, roupa limpinha, quarada sob o sol amazônico, lavada em gamela com água e sabão grosso para depois ser passada com ferro a carvão. Velinha muito querida e estimada por todos de minha família. Era uma verdadeira alegria quando ficávamos na responsabilidade da querida Dona Erotildes. Ela foi presença fundamental em nossas vidas, para a formação de nossa mais remota memória cultural amazônica, alimentou em seu seio nosso imaginário com histórias de raízes caboclas, índias, africanas, européias e pegando em nossas mãos nos conduziu pelas estradas de um mundo mítico. Possivelmente foi uma senhora sem estudos, mas cheia de conhecimento e cultura.
Na época, com idade já avançada, essa digna e responsável senhora era sempre requisitada, como babá, todas as vezes que meus pais iam ao cinema à noite ou então viajavam. Mamãe, mesmo que tivesse uma empregada em casa, sempre pedia que Dona Erotildes fosse tomar conta de nós nessas ocasiões, pois meus manos e manas eram travessos e estavam sempre inventando brincadeiras e fazendo peraltice.
Na horinha do pôr-do-sol, depois de nossa merenda-jantar com chá de capim-cheiroso, acompanhado com farinha de tapioca e pão torrado, nas ocasiões que Dona Erotildes ficava com a gente, era costume das crianças de casa se reunirem ao redor de nossa Babá para ouvir a contação de histórias que alimentavam nosso sonho de criança insular. O lugar predileto nessas horas mágicas para ouvi-lá contar, era a nossa varanda de tábuas corridas. Lembro que muitas vezes a contação começava quando Dona Herotildes se agasalhava em uma cadeira e eu, meus irmãos e irmãs íamos também nos aninhar bem juntinho, todos nós gostávamos dessa proximidade com ela, pois sabíamos que já vinha história de todo tipo e paragem. Eu gostava de sentar bem juntinho dela para ficar olhando sua boca bem de pertinho e ver as histórias saírem de lá, daquela boca banguela que contava histórias como ninguém... Embora nessa época eu ainda não tivesse completado meus quatro anos de idade, ainda lembro muito bem dela e do que pensava na ocasião. Lembro-me de pensar um pensamento de criança pequenina, um pensamento intrigante mais ou menos assim: Será que foi algum “bicho papão” das histórias que ela conta que comeu os seus dentes? Ou então ficava pensando que talvez histórias só saíssem com facilidade das bocas banguelas, bocas sem dente, que não tinham como segurar e morder, de onde palavras escorregavam pela língua fácil, fácil. Na hora da merenda, curiosa, eu ficava observando ela comer o bico de pão e achava impressionante como ela conseguia fazer aquilo sem dentes na boca, eu tentava comer o meu pão igual a ela, sem usar meus dentes, mas logo percebia que não era nada fácil, e aquela boca banguela então ficava cada vez mais cheia de mistérios e encantos pra mim.
Minha irmã mais velha me disse que tinha a impressão que, contar histórias também era uma forma de Dona Erotildes ter controle sobre nós e a balbúrdia que fazíamos quando nossos pais não estavam em casa, ela nos conhecia muito bem e sabia que bastava mencionar a palavra história para que todos sentassem, aninhados bem quietinhos ao seu redor. Ela tinha a sabedoria e o conhecimento do poder de controle que as histórias tinham sobre nós. Algumas vezes, quando estávamos demais bagunceiros ela ralhava, pedia silêncio com seu sotaque de cabocla marajoara, dizia em tom misterioso quase sussurando...
- Psssss! Escuta! É o vapor grande que ta chegando... trazendo história...
Então ela imitava o apito dos navios grandes que passavam na frente da cidade vindos de terras estrangeiras buscar nossa preciosa madeira. Aquele apito abria as comportas de um mar de lendas, permitindo que seres fantásticos e mágicos navegassem até aquela varanda... E lá vinham histórias boiando pelas águas do rio, e lá vinham histórias atracando no trapiche da cidade, rolando pelas areias das ruas, subindo pelas árvores, saltando em cima de nosso telhado, descendo pelos punhos de nossas redes, entrando e entranhando para sempre em nossas mentes, seres lendários como: Matinta-Perêra, Boto, Curupira, Cobra-Grande, Iara, Saci-Perêre, Mãe-de-Fogo, personagens fantásticos demais para aquelas crianças que éramos.
Quando ela começava a contar, tudo ficava quieto, tudo era sossego e mistério naquela varanda, naquela casa, naquela ilha, naquele mundo... E a voz dela, embora enrugada pelo tempo, soava macia como um monte de algodão. Sua fala cadenciada e algodoeira, tecia um enorme tapete mágico que nos levava para mundos e lugares fantásticos para encontrar fadas, bruxa, e todos os seres encantados do mundo da Carochinha. Algumas dessas histórias que ela contava eu nunca mais ouvi em minha vida, porém, permanecem fragmentadas em minha memória, como a história de três cachorros chamados: Rompe-Mato, Quebra-Ferro e Ouve-Longe, e também a história do grão de milho que caiu entre as raízes gigantes de uma árvore... Tantas histórias perdidas no tempo, adormecidas, encantadas, ecoando eternamente em meu espírito.

Noite adentro. Candeeiro já aceso. Depois de muitas histórias e cantigas, já deitada no colo dos manos mais velhos, eu relutava para manter os olhos e ouvidos abertos, e, vez ou outra, ainda conseguia escutar longe os pedidos de meus irmãos que ainda não haviam se rendido ao sono...
- Conta agora uma de fada Dona Erotildes! Conta! Conta!

Hoje, depois de muitos anos passados é que percebo que era ela, Dona Erotildes, a Contadora de Histórias, é que era a nossa Fada Encantada do Marajó.


Cléa Palha / fadinha feliz
Verão amazônico, agosto de 2008

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Roda de histórias na Escola Municipal Nestor Nonato


Meu Deus! O que é isso?Eu quero ficar e assistir de novo...Frases ditas pelas crianças da E M "Nestor Nonato de Lima"que mostraram que mais uma vez as histórias mobilizaram os sentimentos e cumpriram sua mágica missão.Olhos atentos, corpos se encolhendo ao assitir a passagem das visagens eassombrações de Walcyr Monteiro, o Homem visagento, acompaharam a Procissão das Velas, descobriram que Dona Podó era a Matinta do rio Maioatá,souberam como foi que a Moça Seca assim ficou e desvendaram o mistério da Freira de Marudá e como desencantar uma cobra grande com uma Rosa.Crianças, adolescentes e adultos todos nós - Sônia, Vânia, Gilberto, Ana Selma e Peixoto nosso garoto-apoio- ficamos felizes com este momento mágico que as histórias nos proporcionaram.Essa, foi mais uma das histórias que vivemos e como vivebemos...

Ana Selma (Anfitriã da roda)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Eu em nós


Oi índios me acusam de não ter mãos
Os negros reclamam a falta de pés
Os brancos dizem que é assim

Na encruzilhada
Na tocaia
Na janela

Espero na beira-mar
Ir para o norte e para o sul
Ficando na praia

Labuto de corpo inteiro
Com esses afetos desencontrados
Tentando achar a passagem.

Nonato Marçal

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A casa das palavras


As palavras são livres,
Vivem em todo lugar:
Em nossas mentes,
No céu, na terra,
No mar e no ar.

Mas elas também
Têm um lugar para descansar
E ficar protegidas: O LIVRO.

Estar “no livro” é estar na morada das palavras.
E quando nós quisermos visitá-las,
Conversar, rir ou chorar com elas?
Basta abrir a porta do livro...
A porta da casa delas.

Quando abrir o livro,
Elas estarão lá, de braços abertos,
Prontas para nos receber.

E irão nos oferecer _sim, pois são muito educadas:
Realidade, fantasia,
Coisas nunca sonhadas,
E muita, muita poesia.

E quando formos embora
Nos dirão, já com saudade:
_Vá, mas volte a qualquer hora.

(Ana Selma Cunha - Este texto foi vencedor do concurso de Poesia “Ida Oliveira” /2005)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Quem conta um conto...Trovas de Juraci Siqueira


Na última reunião fomos presenteados com a participação do poeta e trovador paraense Antônio Juraci Siqueira, que nos apresentou suas trovas sobre os contadores e sua arte, uma beleza de se ver...Lembrando que le sempre presentea as pessoas com o coração do poeta(foto ao lado)Você já levou o coração do Juraci?Quem sabe na próxima roda de histórias!!
De quando em vez me comovo
No meio da garotada
Descobrindo um mundo novo
Num velho conto de fada!

A vida – tão complicada,
Cheia de problemas mil –
É simples, bela e encantada
Dentro do conto infantil!...

Nesta vida de procuras
Entre certeza e o talvez,
Até as histórias futuras
Têm gosto de “era uma vez”...

Para vencer os conflitos
Dos nossos dias tristonhos,
Inventa um conto bonito
E nela guarda os teus sonhos!

Cada história recontada
É uma fecunda semente
Que quando na alma é lançada,
Germinará novamente!

Quando as luzes da ribalta
O tempo apaga, sem dó,
Meu coração sente falta
Das histórias da vovó...

Brincadeiras de criança,
Histórias do “era uma vez”...
-Quando mais a idade avança
mais eu clamo por vocês!...

Dragões, animais falantes,
Duendes, bruxas malvadas...
- Quantos mitos cativantes
num simples conto de fadas!
-Dona Benta!Narizinho!
Pedrinho!Emília!Visconde!...
Hoje, confuso e sozinho,
Chamo e ninguém responde...

Contador, conta teu conto
E, nessa tão nobre lida,
Aumentarás mais um ponto
Na tua história de vida!

Ao fim das longas jornadas
Poucos de nos percebemos
Que a vida é um conto de fadas.

Para viveres sem trauma,
Planta amor onde passares
Pondo um pouco da tua alma
Nas histórias que contares!

Conta uma história de amor,
Põe nela paz e esperança
Que nada tem mais valor
Que os sonhos de uma criança!

Quem sonha um novo horizonte,
Torna o mundo mais risonho
E faz do conto uma ponte
Por sobre o rio do sonho!

José Monteiro Lobato,
Teu mundo alegre, infantil,
Tem vida e cheiro de mato,
Tem jeito de “Zé Brasil”!

Saltitante, zombeteiro,
Alegre, maledicente...
Como esse Saci matreiro
Instiga os sonhos da gente!

Nem mesmo o computador
Com internet e companhia,
Substituem a magia
Que há na voz de um contador”